O Porto tornou-se demasiado valioso para os seus próprios filhos.

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O Porto tornou-se demasiado valioso para os seus próprios filhos.

Esta semana, o Porto voltou a ser o Porto de sempre: ruas tomadas pela alegria, serenatas a rasgar a madrugada, estudantes a celebrar anos de esforço e de descoberta. A Queima das Fitas encheu a cidade de vida, de cor e de futuro. Mas enquanto a festa durava, uma pergunta ficou no ar, incómoda e urgente: quantos destes jovens conseguirão, daqui a cinco anos, continuar a viver na cidade que os formou?

O Porto nunca foi tão desejado. Empresas de todo o mundo escolhem-no para instalar as suas operações europeias. Investidores internacionais disputam cada metro quadrado disponível. Revistas e plataformas de viagem repetem o nome da cidade como sinónimo de excelência, de autenticidade, de qualidade de vida. Em 2025, foram criadas mais de duas mil novas empresas no concelho, e o volume de exportações com origem no Porto ultrapassou os mil milhões de euros. Os números são reais e merecem ser celebrados.

Mas há outro número que não aparece nos relatórios de sucesso: o preço de um T1 no centro da cidade, que já ultrapassa os mil euros de renda mensal. Há outro dado que ninguém anuncia em conferências de imprensa: o salário médio de um jovem licenciado portuense, que raramente chega a metade do que seria necessário para viver com dignidade na cidade onde estudou. A Queima das Fitas celebra o fim de um ciclo académico. Para muitos, celebra também, sem o saber, o início de uma diáspora silenciosa — para o interior, para Lisboa, para o estrangeiro. Para fora do Porto.

Esta é a contradição que a cidade precisa de encarar sem eufemismos: o Porto tornou-se demasiado valioso para os seus próprios filhos. A valorização imobiliária que enche os noticiários de otimismo é, para uma geração inteira, uma sentença de exclusão. Não é um problema de mercado. É um problema de cidade. E os problemas de cidade exigem respostas de cidade — com coragem, com visão e com a clareza de quem sabe que o verdadeiro capital de uma metrópole não são os seus edifícios, mas as pessoas que os habitam.

Não basta atrair o mundo se não conseguirmos reter quem aqui nasceu, aqui cresceu e aqui se formou. Uma cidade que exporta os seus jovens talentos enquanto importa visitantes e capitais está a construir uma prosperidade oca — brilhante por fora, frágil por dentro. O Porto tem todas as condições para ser diferente. Tem universidades de referência mundial, tem cultura, tem história, tem uma energia que nenhuma campanha de marketing consegue fabricar. Tem tudo — menos uma resposta séria para a pergunta que esta Queima das Fitas voltou a colocar na rua.

Então, esta cidade que o mundo inteiro quer — conseguirá um dia ser também a cidade que os seus filhos podem pagar?

A resposta não está nos rankings internacionais nem nos relatórios de investimento. Está nas decisões que se tomam agora, com ou sem aplausos. Está na coragem de colocar o portuense — o jovem, o trabalhador, o residente — no centro de um modelo de cidade que, até hoje, o tem tratado como paisagem.

O Porto merece mais do que ser admirado de fora. Merece ser vivido por dentro. Por todos.

MOMENTUM
Editorial do Momento do Porto
Por Sérgio Santos, diretor do Momento do Porto

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