O historiador e escritor Hélder Pacheco defende que a tradição de celebrar, mesmo perante dificuldades económicas e sociais, continua a ser uma das marcas mais profundas da identidade do Porto. Num texto recentemente partilhado pela página “Vizinhos em Vias de Extinção”, o autor estabelece um paralelo entre o conceito sérvio “INAT” e o espírito resiliente dos portuenses.
Inspirando-se na palavra sérvia INAT, que descreve uma forma de resistência assente na recusa em desistir perante a adversidade, Hélder Pacheco reflete sobre a forma como o Porto transforma a celebração numa expressão de resistência e união.
Para o autor, fazer festa não representa um luxo nem uma fuga à realidade. Pelo contrário, constitui uma forma de enfrentar as dificuldades, reforçando os laços da comunidade e afirmando a vontade de celebrar a vida, mesmo em contextos adversos.
O historiador recorda vários momentos que, na sua perspetiva, ilustram esse espírito coletivo, desde as centenas de milhares de adeptos que saíram às ruas para celebrar uma conquista do FC Porto até às festas populares que atravessam gerações. Destaca a importância da Festa de São Bartolomeu, reconhecida como Património Cultural Imaterial de Portugal, bem como de celebrações tradicionais como São Nicolau, Nossa Senhora do Porto e da Saúde e São Pedro Gonçalves.
Hélder Pacheco sublinha ainda o papel do São João enquanto símbolo maior da cidade, evocando elementos que fazem parte da tradição portuense, como as cascatas, as rusgas, as sardinhadas, os balões, os martelos e o alho-porro.
Ao longo do texto, o autor reconhece os desafios que atualmente marcam a vida no Porto, entre eles os baixos salários, o aumento do custo de vida, a dificuldade no acesso à habitação, a pressão turística e a transformação de bairros históricos. Ainda assim, considera que a cidade continua a preservar uma identidade marcada pela capacidade de resistir sem abdicar da celebração.
Na conclusão, Hélder Pacheco defende que o conceito de INAT traduz, de forma particularmente feliz, aquilo que identifica como o espírito tripeiro: a capacidade de enfrentar as adversidades sem perder a alegria, fazendo da festa uma afirmação de pertença, coragem e comunidade.