Conhecer a Santa Casa da Misericórdia do Porto

Share
Conhecer a Santa Casa da Misericórdia do Porto

António Tavares, Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, fala sobre a instituição e o seu percurso enquanto provedor.

António Tavares, lidera uma instituição com mais de 500 anos e que não para de crescer e ganhar valências. De forma sucinta, como define a Santa Casa da Misericórdia do Porto?

Desde o dia 14 de março de 1499 que desenvolvemos atividade de forma ininterrupta, uma longevidade institucional que significa que a instituição soube sempre responder aos desafios e à inovação social de cada época.

Hoje temos uma atividade que atravessa questões do envelhecimento, da emergência social, da saúde ou do apoio prisional. Atividades que vamos desenvolvendo a par de outras no domínio da educação. E para isso precisamos também de sustentabilidade, sustentabilidade essa que nos é dada pelas receitas que recebemos da prestação de serviços que fazemos ao Estado e do nosso património, das rendas do nosso património, que ajudam a cumprir a nossa tarefa.

Evidentemente que a Misericórdia do Porto nesta fase da sua vida, do século XXI, é completamente diferente da misericórdia do século XV, do século XVI e por aí adiante. Porque os problemas hoje são diferentes, hoje temos dificuldades que nos são inerentes, por exemplo, ao novo conceito de família, ao maior individualismo das pessoas, mas também a uma maior presença do Estado, o chamado Estado Social. E nós, como parceiro do Estado, atuámos em complementaridade ao Estado e em subsidiariedade ao Estado. E temos com o Estado uma relação profícua, que nos permite dar respostas, não os substituindo ao Estado, mas, como disse, complementando‑nos ao Estado.

Falamos aqui no Apoio Prisional. Para quem não conhece, qual é o papel da Santa Casa, por exemplo, no Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo?

No Estabelecimento Prisional Santa Cruz do Bispo feminino, desenvolvemos um projeto piloto, que já tem cerca de 20 anos, e que procura dar resposta a uma nova maneira de gerir o sistema prisional. Ou seja, o Estado neste estabelecimento prisional assegura a execução de penas e a segurança, mas todos os outros serviços que estão inerentes ao funcionamento do estabelecimento, como as questões do trabalho em ambiente de reclusão, a formação profissional ou a própria educação das reclusas, é feito através da Santa Casa da Misericórdia do Porto.

É um modelo, quanto a mim, muito equilibrado, porque permite por um lado e sem fins lucrativos, realizar um conjunto de atividades que devido à sua proximidade e à nossa própria atitude, são completamente diferentes e são indicados nos relatórios internacionais como muito positivas. E são também vistas de forma positiva pelas reclusas. É um modelo que foge àquela ideia que existe, por exemplo, na Inglaterra ou nos Estados Unidos, da privatização do sistema prisional, onde o Estado não se demite das suas responsabilidades, mas tem entidades que podem ajudar muito melhor nesta complementaridade, porque a própria máquina do público e do Estado tem as suas idiossincrasias. Um modelo positivo, que é avaliado todos os anos, é escrutinado, já o foi pelo Tribunal de Contas e, portanto, tudo aquilo que não é polémica, é porque está a correr muito bem.

Sem prejuízo de qualquer uma das várias áreas da atividade, a área social é a principal da atividade da Santa Casa. Aliás, quem visitar, por exemplo, o site da Santa Casa, vê que o objetivo é ser, precisamente, uma referência na área social.

Numa altura em que existem tantas dificuldades precisamente de cariz social, qual sente ser a importância de uma instituição como a Santa Casa? E já agora, dos vários programas que tem, quais são aqueles que mais se destacam no conceito atual?

Nós, na Santa Casa da Misericórdia, preocupávamos, acima de tudo, com a inovação social. E nessa inovação social temos duas grandes linhas orientadoras꞉ o envelhecimento e a emergência social.

Olhando para o envelhecimento, procuramos respostas avançadas, por exemplo, na área do apoio domiciliário, na articulação entre o envelhecimento e a saúde. Portanto, que não é só o apoio social, mas é, também, a complementaridade da saúde. E procuramos trazer as novas tecnologias para este debate, assim como na emergência social, e procuramos trabalhar em cima de projetos mais inovadores. Fizemos o primeiro centro de acolhimento social no país, que depois rapidamente foi replicado em outros locais, cujo objetivo é, em situações de crise social, assegurar alojamento para as pessoas poderem crescer, da mesma forma que continuamos a trabalhar em programas de proteção de vítimas de violência doméstica ou violência de género.

Ao lado disto, vamos criando como outros parceiros aquilo a que nós chamamos de projetos especiais. Projetos que se preocupam com especificidades concretas, com apoio ao luto das pessoas, no novo modelo de família, ou no acompanhamento de menores.

Portanto, nós temos a preocupação de estar presente naquilo que pode significar a inovação social. Agora, é evidente que temos consciência de que são áreas que não conseguem libertar recursos, e que as assumimos como tal. Porquê? Porque são áreas que são financiadas pelo Estado, e temos de salientar aqui que o Estado nos últimos tempos (estou a falar do Estado e não do Governo), tem feito um esforço de atualizar, por exemplo, os valores com a participação das instituições.

E ainda temos um problema grave da nossa sociedade, que é o problema da solidão. As cidades não estão preparadas para os idosos, as habitações não estão preparadas para os idosos e, portanto, temos muitos problemas paralelos, que depois impactam no orçamento da saúde, por razões óbvias, que precisavam de uma atividade mais participativa.

Mas quando falamos, sobretudo dos mais idosos, certamente que a Santa Casa não consegue dar resposta a todas as solicitações. Não quero falar em lista de espera, mas quais seriam as necessidades reais?

A necessidade real é impossível de se concluir, porque isso implicaria uma institucionalização das pessoas e não há nenhuma condição para fazer.

Quando se fala em redes de cuidados continuados, por exemplo, os Lares ou ERPI's, temos de ter consciência de que temos de mudar o modelo que está a suportar tudo isto. E temos de começar a trabalhar mais cedo. Sabemos que as pessoas se aposentam à volta dos 66 anos, e temos aqui, neste período de aposentação, dois momentos. Um momento que vai ali até os 80 anos, em que as pessoas mantêm a sua atividade, a sua força, a sua capacidade. E depois temos um momento que vai depois dos 80/85 anos, que é o momento de alguma decadência física, onde começam outros problemas, as doenças, as demências, os Alzheimer e, portanto, problemas que são complexos.

Como poderíamos alterar isto? Melhorando muito o Serviço de Apoio Domiciliário. Acho que era necessário criarmos também uma espécie de Serviço Nacional de Apoio Domiciliário, que não assente no Estado, mas assente nas instituições, para que as pessoas não sejam obrigadas a sair de suas próprias casas.

E depois, para aqueles que têm maior capacidade económica, trabalhar em outras formas de habitação, co‑living, co‑housing, habitação partilhada em que já não é preciso ter cozinha, já não é preciso ter lavandaria e outras coisas do género, e podemos ter esses serviços como serviços partilhados. Nós precisamos de evoluir rápido aqui.

E depois, com a ausência grande da família, o combate à solidão, porque a solidão é também uma forma de exclusão social. E, portanto, precisamos mudar este processo e precisamos de ainda vir mais cedo para o mudar, na educação. As crianças têm de ser educadas mais cedo a compreender que o Ministério se chama da saúde e não da doença. Estamos sempre a sobrecarregar os hospitais e há aqui uma forma errada ou de gestão. E isso não tem nada a ver com preconceitos ideológicos. A Constituição é o garante do papel do Estado e o Serviço Social está lá.

Agora, uma coisa é o financiamento público, outra coisa é que tudo seja de gestão pública. E o que a experiência está a demonstrar é que a gestão pública nem sempre é a melhor forma. O Estado, mesmo nas questões sociais, só consegue resolver as questões quando está aberto, entre as 8 da manhã e as 4 ou 5 da tarde. E depois disto delega essas funções no INEM ou na GNR e na PSP, que ficam com os casos complexos.

O Estado precisa das instituições sociais, que têm um papel e um desempenho em Portugal digno de registo na Europa e não estão ao serviço de nenhum interesse capitalista, comercial, lucrativo ou mercantil.

"Tudo aquilo que não é polémica, é porque está a correr muito bem."

Um dos grandes problemas que a nossa sociedade vive é a questão da habitação. A Santa Casa tem um vasto património, parte dele histórico, cultural e artístico, mas depois tem uma outra parte, onde possuem, por exemplo, o programa Reabilitar para Arrendar. Em que ponto está este programa? Tem ideia de quantas famílias já conseguiu alojar? E já agora, qual o volume de solicitações que vão recebendo?

Começando pela última parte, as solicitações são imensas. As pessoas dirigem‑se à Misericórdia pensando que se estão a dirigir a alguma organização pública, ou algum organismo público, ou à própria autarquia.

A Santa Casa tem dado um contributo importante e desde logo participou na definição da Estratégia Local de Habitação e estamos a aguardar que a Câmara Municipal aprove os programas que temos para habitação, a Estratégia Local de Habitação, que são à volta de 100 habitações.

E temos estado, através do Programa Reabilitar para Arrendar, a reabilitar. Já a reabilitamos mais de 50 habitações que colocámos no mercado a preços acessíveis e permitiram às pessoas conseguir entrar no mercado da habitação com preços controlados, vamos dizer assim.

Portanto, esse é o contributo que temos dado para o setor, acreditando nós que é preciso rapidamente resolver o problema da habitação em Portugal, para que as pessoas possam entrar no mercado da habitação, porque hoje em dia comprar uma casa é um preço completamente astronómico, não faz sentido nenhum, e os arrendamentos estão t a mbém a valores completamente desproporcionados.

Depois permitir que a habitação pública, que quanto a mim devia ser feita da iniciativa das autarquias locais, pudesse ser de habitação resolúvel, ou seja, que as pessoas fossem pagando as rendas e no final a casa pudesse ser delas. Até porque isso iria permitir, que trabalhassem manutenção das casas. Aconteceu com o Dr. Rui Rio e provavelmente também do Dr. Rui Moreira, que o que se gasta em manutenção e conservação, impede depois que se faça mais habitação pública.

Virando a página para a saúde, a Santa Casa tem o Hospital Conde Ferreira e o Centro Hospitalar da Prelada. O Conde Ferreira tem cerca de 140 anos. Mas tem atualmente, com as doenças mentais a aumentarem, uma importância mais vincada na nossa sociedade? Sente‑se um aumento na procura?

O Hospital Conde Ferreira já foi uma espécie de hospital maldito, uma espécie de hospital para onde se atiravam as pessoas, mas hoje a saúde mental é um problema da nossa sociedade e devemos encará‑lo com tranquilidade, para tentar obter respostas para ele.

E o Conde Ferreira tem vindo a ser um hospital que se tem vindo também a transformar juntamente com a sociedade e se abriu à sociedade. Temos hoje um conjunto de camas que apoiam e ajudam pessoas que não têm condições para estar no exterior. E temos manifestado junto das autoridades públicas a nossa disponibilidade para ajudar a resolver o problema das camas sociais que estão a preocupar os hospitais do Porto. E também para criar condições para que haja uma certa desdramatização dos problemas da saúde mental, da psiquiatria, da psicologia.

Portanto, há condições para que o Conde Ferreira, com os seus espaços que são magníficos, com as suas ondas verdes, possa nesta segunda parte do século XXI dar um contributo neste domínio, numa nova maneira de ver os problemas que têm a ver com a saúde mental.

A Prelada abriu recentemente o Centro de Atendimento Clínico. Pergunto‑lhe qual é a função deste centro e de que forma acha que vai ajudar os tradicionais serviços de urgência?

Eu diria que o Hospital da Prelada, desde a sua fundação, tem vindo a cumprir o desiderato de ser articulado para o Serviço Nacional de Saúde e foi exatamente nesse âmbito que o Ministério da Saúde nos pediu para ver se havia condições para arrancar o primeiro Centro de Atendimento Clínico na região, que apoiasse os hospitais de São João e de Santo António, com os doentes das pulseiras verdes e das pulseiras azuis, portanto, casos menos urgentes. E acho que o projeto está a correr bem.

"Temos um problema grave da nossa sociedade, que é o problema da solidão."

O tempo de espera para estes doentes no Hospital da Parlada, entre chegar e ser atendido, em média não demora mais do que uma hora. Estou convicto que vai ser uma experiência que vai ter uma avaliação positiva, porque muitas destas pessoas são pessoas que não conseguem entrar no sistema de determinada patologia, não têm aquela instituição nacional que é a cunha e, portanto, não conseguem. Pessoas que estão completamente desenquadradas e que, com esta medida, o Serviço Social de Saúde consegue dar‑nos uma resposta proactiva e uma resposta que lhes resolve o problema que era de fundo.

Este Centro teve algum ruído quando se falou da parte de financiamento. De alguma forma, o financiamento deste Centro era uma necessidade para a Santa Casa da Misericórdia do Porto?

A Santa Casa da Misericórdia do Porto é uma instituição que não se financia no Governo e que não vai ao Governo pedir.

A Santa Casa da Misericórdia do Porto, como todas as instituições, ultrapassou momentos que são sempre difíceis, porque é bom não esquecer que a Covid deixou rasto em todo o lado, a guerra da Ucrânia, com as taxas de inlação, deixou rasto.

Agora, é evidente que quando é para deitar abaixo, ou procurar denegrir, ou procurar transformar uma resposta técnica, em alguma resposta ideológica ou política, obviamente isso é possível.

Nós temos um modelo com o Estado, que é receber cada utente que nos é enviado, seja pelo São João, pelo Santo António ou pela Saúde 24, 45 euros. E esses 45 euros inclui também os meios complementares de diagnóstico que estão previstos, portanto, não me parece que seja um número exagerado. Acima de tudo, é um número perfeitamente acomodado no orçamento de cada uma destas instituições.

Para a Santa Casa da Misericórdia do Porto é mais um serviço cívico, porque depois ninguém vem perguntar das áreas onde a Santa Casa da Misericórdia também tem de financiar a realização da sua atividade nos sem abrigo ou nas mulheres vítimas de violência doméstica. Se tivéssemos uma leitura simplista disto, fechávamos estas áreas todas. Nós, na nossa área social, em média, por ano, deixámos de ganhar 2,5 milhões de euros. É o nosso contributo para a sociedade.

O que nos interessa é a avaliação que as entidades competentes fazem. Essa é que nos interessa.

Quando falamos de contas e das várias Santa Casas, há aquela ideia de que só pelo jogo, Euromilhões, Totoloto, etc., as Santa Casas sobrevivem. Algo que não é verdade...

Não é verdade. Todo o jogo está entregue à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Todos os jogos sociais. E não é de agora, é desde o século XVIII, desde o Marquês de Pombal. Desde o terramoto de Lisboa, em que a instituição ficou descapitalizada, Dona Maria I entregou e a partir daí todos os jogos sociais passaram a ser por ela. Quer em Monarquia, quer na Primeira República, quer no Estado Novo, quer agora. As instituições tiveram, durante uma determinada fase do Estado Novo, aquilo que se chamava a Mesa de Jogos, onde as misericórdias mais com maior dimensão, como era o caso do Porto ou Braga, participavam numa espécie de Conselho de Gestão dos Jogos. Mas não recebiam ou havia transferências diretas dessas verbas para as instituições. Houve casos pontuais, por exemplo, no financiamento à construção do Hospital da Perlada, onde o Estado participava através do Totobola. Mas com o 25 de Abril, isto tudo acabou. Portanto, a partir de agora, o que é que existe? O Estado gere o jogo todo, onde há regras e há uma parte dessas regras que são afetas à distribuição aos territórios.

Muitas vezes o dinheiro dos jogos vai para o bolo do orçamento do Ministério da Segurança Social ou do Ministério da Saúde e daí depois sai para outros programas. Portanto, quando se fala do jogo é uma falácia. Depois, o que aconteceu na Misericórdia de Lisboa, com os jogos, foi também o facto de a Misericórdia de Lisboa, muitas vezes, ser obrigada, entre aspas, a responder a desejos políticos do Governo. É evidente que isso, às vezes, cria dificuldades às pessoas, porque estamos a apoiar atividades profissionais e não estamos a apoiar atividades nossas. Há aqui uma deturpação.

Agora, claro está que serve a quem está na avaliação destas situações. Dá jeito meter tudo no mesmo saco, não é?

E depois abrimos o saco como enfrentamos uma ventoinha, ele dispara em todos os sentidos, e depois pronto, temos as comissões de inquérito, temos não‑sei‑quem, tudo isto... e dez anos depois chega‑se à conclusão que afinal não era bem assim. Porquê? Porque, entretanto, alguns protagonistas já saíram.

Eu, pessoalmente, não concordo com as verbas como elas estão, mas compreendo que há aqui alguma gestão política destas coisas. Por alguma razão, por exemplo, o Estado ainda não tratou das concessões dos casinos.

Todo o jogo que é feito pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Raspadinha, Totobola, Euromilhões, Eurodreams, o que quiser. Todo ele começa e acaba na Misericórdia de Lisboa.

Como é gerir esta casa e que tipo de desafios vai enfrentando todos os dias?

São os desafios da própria circunstância. Ou seja, a dinâmica social altera‑se todos os dias. Os problemas das pessoas alteram‑se todos os dias. Eu sou provedor da Santa Casa há 14 anos e serei candidato a um próximo mandato [a entrevista foi realizada antes das eleições do passado dia XX de novembro], que será o meu último mandato, e tenho plena consciência de que a alteração das regras da família, a articulação das pessoas, algum maior egoísmo das próprias pessoas na sociedade, altera todo este padrão.

Agora, nós não conseguimos fazer nada se não tivermos políticas públicas muito bem definidas. Estarmos nas ruas do Porto e vermos sem abrigo dormir à porta de um Teatro Nacional como o São João, acho que não é nada que orgulhe a Câmara, que orgulhe as instituições da cidade, que orgulhe os portuenses. E não é tirar as pessoas da rua e mantê‑las num sítio qualquer e deixar de ter o problema, não. É perceber que, por exemplo, o problema precisa de uma abordagem integrada, precisa de perceber que por trás do sem abrigo está muitas vezes o tráfico de drogas, ou que muitas dessas pessoas já não têm possibilidade de voltar ao mercado de trabalho.

E o Estado continua a desbaratar um rendimento social de inserção e continua a criar uma ficção, sabendo que elas não vão conseguir sair dali. Portanto, o melhor é assumi‑las como pessoas doentes, a quem se dá uma pensão de aposentação e que se espera, depois, integrá‑las em programas que os possam ajudar, a que pelo menos, não vivam pela rua.

Mas acredita que teremos soluções a curto/médio prazo?

Eu acho que aqui é um bocado como a guerra dos israelitas e dos árabes. Isto são questões que vêm da história. Nunca ninguém erradicou a pobreza, nem ninguém acaba com a pobreza. Nós conseguimos é melhorar os problemas. E todos os dias aparecem novos problemas. Quando era criança, lembro‑me que ir a uma taberna e beber vinho, era um ato cultural, que nós não criticávamos. Era normal. E todas as pessoas saíam bêbadas destes locais, chegavam a casa e batiam nas mulheres. Era considerado normal. Mas a sociedade evoluiu. É isso que vamos ter de fazer em relação a outros problemas. Se nós não conseguimos ter políticas públicas muito bem definidas, o que é que eu faço na habitação? O que é que eu faço na educação?

Nós hoje estamos num processo, que é um processo muito mais reivindicativo das corporações, que perceberam que o Estado está mais frágil e, portanto, reivindicam com mais força. O Estado falhou e tornou‑se muito mais funcional. Quando vem o problema, aplica‑se um protocolo ao problema, não se tenta compreender o problema e a pessoa que está por trás do problema.

Mas o facto de termos várias frentes de problemas de necessidade urgente, não dificulta ainda mais este trabalho? Vai chegar a um ponto em que é quase impossível.

Torna muito difícil. Agora nós também temos de compreender, temos de gerir bem. Nós somos um país pequeno e toda a nossa população cabe numa das grandes cidades do mundo. Portanto, não seria muito complexo podermos fazer uma gestão muito mais próxima.

Mas é preciso saber qual é o papel do Estado, qual é o papel da sociedade civil. Temos de ter aqui este equilíbrio. E as misericórdias continuam de pé! Estamos a falar de instituições com cinco séculos, e não há muitas em Portugal. Tirando a Igreja, o próprio Estado, na conceção moderna, não tem cinco séculos. Portanto, nós fomos uma espécie de Sociedade de Providência.

Eu acho que um desejo grande é acabar com os problemas, mas não o conseguiremos nunca, porque acho que seria demagogia acabar com todos os problemas.

Temos um problema que é um lagelo complexo mundial, o problema das drogas. Mas o grande problema não está aqui. Somos a consequência do problema que atravessa a fronteira entre o México e os Estados Unidos e que vem da Colômbia. Agora, quando eu sei que há países que vivem disso, vivem do narcotráfico, como a Bolívia, o Peru ou a Colômbia... As organizações internacionais também sabem, toda a gente também sabe.

Às vezes é mais fácil assobiarmos para o lado e fazer de conta que o problema não existe. As instituições, as Misericórdias, têm essa coragem, vão ao problema, tentam ajudar.

Quando lançámos, por exemplo, o acolhimento social, foi porque nos apercebemos que havia pessoas que, depois de um incêndio, depois de uma dificuldade, fosse ela de que ordem fosse, não tinham um sítio para estar. Criamos um programa de alojamento, onde as pessoas estão até 3 meses, e ao final de 3 meses são recolocadas. Por exemplo, se aqui no Porto tivermos uma catástrofe, seja ela de que ordem for, não existe um sítio para pormos as pessoas. Esse sítio, inevitavelmente, vai ser um quartel. Quando nós pensamos algumas questões da proteção civil ou da gestão de crises, acreditamos sempre que os problemas não vão acontecer. Quando veio a Covid tivemos de nos reinventar, porque foi um problema muito complexo.

Pergunto‑lhe ao longo destes 14 anos, qual é, por assim dizer, a maior mágoa que tem por não ter conseguido alguma coisa? E, ao mesmo tempo, qual foi a sua maior satisfação? Se é que consegue identificar.

A maior mágoa é sempre a não ter conseguido fazer tudo o que pensámos e queremos fazer A transformação das mentalidades é sempre o maior problema. Há uma posição sempre muito crítica em relação àquilo que é transformação. porque a transformação e a mudança social, é como dizia o Fernando Pessoa꞉ primeiro estranha‑se, depois entranha‑se, não é? A minha maior mágoa é essa, é a transformação das mentalidades. É percebermos que, às vezes, as novas gerações têm menos vontade pelo risco e estão mais acomodadas ao status quo.

A minha maior alegria é o contributo que pude dar, neste tempo todo, a ajudar a mudar essas mentalidades. Ou seja, a participação em programas que ajudaram a mudar a mentalidade, a começar pela cultura. Hoje, as Misericórdias têm, por exemplo, uma vocação muito grande para a cultura, e eu concretizei um sonho que já vinha do século XIX, que era fazer o Museu da Misericórdia do Porto. E isso serviu de exemplo para outras instituições.

Não somos nem organizações do Estado, nem organizações da Igreja e eu acho que isso é que é muito importante. Somos organizações do povo e costumo dizer que os nossos acionistas são os pobres.

Repare que a minha maior alegria e a minha maior frustração, são exatamente a questão das mentalidades. Porque sem as mentalidades alteradas, nunca vamos conseguir ultrapassar rigorosamente nada.

Falou que, sendo eleito, [venceu a eleição que decorreu em data posterior à entrevista] será o seu último mandato. Tem algum projeto que ainda queira realizar?

Talvez reabilitar o resto do parque habitacional da Misericórdia do Porto, que está subaproveitado. Temos de colocar no mercado para, até com as suas rendas, reforçarmos a nossa instituição. Depois, também, terminar e colocar em atividade os dois pisos do Hospital da Prelada, que estão ainda fechados, e concluir uma integração de um novo lar para a nossa instituição. Um lar de nova geração, com respostas modernas às questões que têm a ver com as demências e outras relacionadas.

Fundamentalmente são estas áreas que me preocupam e que gostaria de ver realizadas. Obviamente depois há muitas outras, mas cuja dimensão é mais fácil de execução.

Agora para terminar, quem é António Tavares, para além do provador?

Eu sou uma pessoa que nasci no Porto, vivi uma parte da minha vida em Coimbra enquanto estudante e outra em Lisboa, nunca deixei de estar no Porto e nunca deixei de estar preocupado com o Porto e com a vida do Porto. E, por isso, participo sempre, do ponto de vista cívico, na vida das instituições do Porto. Sou provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, talvez, uma das funções onde as pessoas me conhecem mais. Mas, também, sou presidente da Assembleia Geral do Futebol Clube do Porto, presidente da Assembleia Geral da Banda Sinfónica Portuguesa, com sede aqui no Porto, estou na direção da Liga dos Amigos da Porto Maria Pia ou na direção do Coliseu. Tenho uma vida muito relacionada com as instituições do Porto, porque acho que elas são o pulsar da nossa cidade. Sem elas, a cidade não seria a mesma coisa.

Não podemos esquecer que o português é alguém que faz as tripas coração e isso mostra bem a nossa capacidade de estar na vida.

Por isso, eu sou uma pessoa que procuro, e procurei sempre ao longo deste tempo, ter uma intervenção cívica, uma intervenção política e nunca precisei de me esconder atrás de nada. Nunca fui independente, porque não acredito muito nos independentes, acredito que nós temos convicções, temos ideias, e por isso as pessoas sabem de onde eu venho e para onde eu vou.

E procuro acima de tudo ser útil, não me tento pôr em bicos de pés, não tento ter a modéstia que às vezes é contraproducente, procuro acima de tudo, dar o meu contributo ao Porto. Acho que é um bocado isso a minha preocupação.

O Estado precisa das instituições sociais, que têm um papel e um desempenho em Portugal digno de registo na Europa.

Read more

Agenda Infantil: atividades para fazer com as crianças no Porto nos próximos dias

Agenda Infantil: atividades para fazer com as crianças no Porto nos próximos dias

Oficinas criativas, experiências sensoriais, cinema de animação e atividades ligadas à leitura integram a programação infantil disponível na cidade para diferentes faixas etárias. As famílias que procuram atividades para crianças no Porto têm várias opções nos próximos dias. A agenda inclui oficinas artísticas, experiências sensoriais para bebés, cinema de animação,

By Momento do Porto

Segue o Momento do Porto

Instagram Threads TikTok X Facebook