Amolador do Bolhão quer salvar ofício em risco de desaparecer
No Mercado do Bolhão, no Porto, André Fernandes continua a afiar facas, tesouras e memórias de uma profissão cada vez mais rara. O artesão de 37 anos viu recentemente ser aceite a candidatura do ofício de amolador à Rede Nacional do Património Cultural Imaterial, numa tentativa de preservar uma tradição familiar que atravessa já três gerações.
A notícia representa um passo importante para um ofício que André considera estar “em vias de extinção”. Herdada do avô e do pai, a profissão mantém-se viva diariamente na banca que ocupa no renovado Mercado do Bolhão, onde o som da flauta tradicional e as faíscas da mó continuam a chamar a atenção de clientes, turistas e curiosos.
A candidatura surgiu por iniciativa de Susana Monteiro, mulher do artesão, com o objetivo de garantir reconhecimento e continuidade a uma atividade que marcou durante décadas a identidade popular da cidade. O casal acredita que a integração na Rede Nacional do Património Cultural Imaterial poderá ajudar a valorizar o ofício, criar novas oportunidades de divulgação e incentivar futuras gerações a aprender a arte da amolação.
Além do serviço tradicional de afiar facas, tesouras, alicates ou utensílios profissionais, André Fernandes também se dedica à cutelaria artesanal e à reparação de guarda-chuvas, recebendo clientes de diferentes pontos do país e até do estrangeiro. Na banca do Bolhão, os preços variam entre os 65 cêntimos para afiar uma faca de legumes e os 6,5 euros para tesouras de relva.
O artesão organiza ainda oficinas onde ensina visitantes a criar facas artesanais, numa experiência que já atraiu turistas de países como Japão, Porto Rico e Brasil. O espaço funciona também como uma pequena memória viva da profissão, com fotografias, recortes de jornais e objetos antigos ligados à história da família.
A profissão de amolador teve durante décadas forte presença nas ruas portuguesas. Os profissionais percorriam cidades e aldeias de bicicleta, anunciando a chegada através de uma flauta característica para recolher utensílios de corte para afiar. Com a mudança dos hábitos de consumo e o desaparecimento gradual dos ofícios tradicionais, a atividade foi perdendo expressão em várias regiões do país.
No Porto, André Fernandes é hoje um dos poucos rostos associados a esta arte tradicional. O próprio reconhece que o contexto atual favorece a substituição dos objetos em vez da sua reparação, mas acredita que existe ainda procura suficiente para manter o ofício vivo.
A ligação ao Bolhão atravessa décadas. O avô trabalhava à porta do mercado ainda nos anos 80 e o pai percorreu várias localidades do país a exercer a profissão. André deu continuidade ao negócio familiar em 2007, depois de abandonar a área da padaria e pastelaria. Em 2020 criou a marca “André, o Amolador”, apostando também na produção própria de facas e canivetes artesanais.
Apesar de desejar que os filhos possam manter viva a tradição, garante que a prioridade é deixá-los escolher o próprio caminho. Ainda assim, espera que o reconhecimento agora alcançado ajude a garantir que o som do amolador não desapareça das ruas e da memória da cidade.
No Porto, onde muitos ofícios tradicionais têm vindo a desaparecer, a história de André Fernandes continua a lembrar uma cidade construída pelo trabalho manual, pela proximidade e pelas profissões que fizeram parte do quotidiano de várias gerações.