Trinta e três mil portuenses vivem sozinhos. Alguém os ouviu hoje?

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Trinta e três mil portuenses vivem sozinhos. Alguém os ouviu hoje?

Quantos portuenses com mais de 65 anos acordaram esta manhã sem ninguém ao lado? Quantos vão passar o dia inteiro sem que uma única pessoa lhes dirija a palavra? A resposta não é um palpite, é um número: trinta e três mil. O suficiente para encher o Estádio do Dragão até ao último lugar e ainda deixar gente de fora.

Mais de metade dos idosos do Porto vivem sozinhos. E o sentimento de solidão em Portugal, segundo o ISCTE, disparou na última década. Somos, enquanto sociedade, mais conectados e mais sós do que alguma vez fomos.

O Porto tem feito o seu caminho e é justo reconhecê-lo. Aderiu à Rede Mundial de Cidades Amigas das Pessoas Idosas da OMS em 2010. Lançou dezenas de projetos, do “Pedalar Sem Idade” ao Táxi +65. Recebeu o Galardão de Ouro no Envelhecimento. Apresentou no Conselho da Europa a sua visão de vanguarda. Galardões, prémios, reconhecimento. Tudo verdade.

Mas há uma pergunta que ecoa em 33 mil casas vazias e que eles já desistiram de fazer, porque ninguém responde: se tudo isto existe, porque é que continuamos a envelhecer sozinhos?

Esta semana, o seminário “Envelhecimento: da urgência à decisão interinstitucional”, na Misericórdia do Porto, expôs o que muitos já sabiam: saúde, proteção social e justiça funcionam em silos. Os idosos mais vulneráveis caem nos buracos entre instituições, autónomos demais para serem sinalizados, frágeis demais para pedirem ajuda.

E não faltam referências: Barcelona redesenhou bairros inteiros com superblocos e devolveu os idosos à rua e ao convívio. Viana do Castelo criou uma rede de voluntários universitários que visitam idosos isolados. Uma ponte entre gerações que não custa milhões, custa vontade. Não são utopias. São escolhas.

O Plano de Ação “Porto Cidade Amiga das Pessoas Idosas” terminou em 2025. E agora? Qual é a meta para 2026? Quantos idosos sinalizados passaram a ter acompanhamento? Quantos deixaram de estar sozinhos?

Uma cidade que ganha prémios internacionais pelo envelhecimento ativo e que tem mais de metade dos seus idosos a viver sozinhos precisa de se perguntar se está a premiar a intenção ou o impacto. O Momento do Porto não pretende diminuir o que foi feito, antes pelo contrário. Pretende perguntar, apenas e só, se é suficiente. Ou se podemos ir mais longe.

Trinta e três mil. Um Dragão inteiro de gente que ninguém vai visitar amanhã. Todas as semanas, a cidade enche um estádio para celebrar. Mas não encontra forma de visitar quem envelhece sozinho a duas ruas de distância.

MOMENTUM
Editorial do Momento do Porto
Por Sérgio Santos, diretor do Momento do Porto

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