Dos campos da Maia para as mãos dos portuenses: a história do homem que ajuda o São João a cheirar a manjerico
Há mais de três décadas que Joaquim Araújo produz milhares de manjericos todos os anos, ajudando a preservar uma das tradições mais emblemáticas das festas populares
Enquanto milhares de pessoas celebravam mais uma noite de São João nas ruas do Porto, havia uma tradição silenciosa que continuava presente em varandas, mesas e mãos de quem participou na festa: o manjerico. Por trás de muitos destes vasos está o trabalho de Joaquim Araújo, um dos maiores produtores de manjericos do país, responsável por fazer chegar dezenas de milhares de exemplares a Portugal e ao estrangeiro todos os anos.
Nos terrenos que cultiva em Pedrouços, na Maia, crescem anualmente mais de 40 mil manjericos. A produção abastece mercados, feiras e vendedores ambulantes durante a época dos Santos Populares, levando consigo um dos símbolos mais reconhecidos do São João. Parte da produção segue também para comunidades portuguesas emigradas, sobretudo em França e na Suíça, onde as tradições continuam a ser celebradas longe de casa.
A ligação de Joaquim Araújo ao manjerico começou há mais de 30 anos, quando recebeu algumas plantas de um vizinho. O interesse transformou-se numa paixão que se mantém até hoje. Apesar de reconhecer que a atividade pode ser rentável, garante que continua a dedicar-se à produção sobretudo pelo gosto pessoal e pela vontade de preservar uma tradição portuguesa.
A preparação dos manjericos começa ainda no inverno. As sementes são lançadas em fevereiro e as plantas são acompanhadas durante vários meses para que atinjam diferentes tamanhos até junho. Depois de germinarem, são transplantadas para o terreno, onde crescem até estarem prontas para serem comercializadas. Durante o período de maior procura, chegam a trabalhar cerca de 20 pessoas na colheita e preparação das plantas.
Mas o manjerico não vive apenas do seu aroma característico. Tradicionalmente associado aos namorados e à troca de afetos, é acompanhado por uma quadra popular que ajuda a transmitir mensagens de amizade, carinho ou amor. Joaquim Araújo e a esposa participam também nessa tradição, criando as quadras que acompanham muitas das plantas que vendem. Para o produtor, a mensagem faz parte do gesto e ajuda a manter viva uma das dimensões mais populares da festa.
A importância do manjerico no São João é também destacada pelo jornalista e historiador Germano Silva, que recorda que a planta era tradicionalmente oferecida entre rapazes e raparigas como forma de expressar sentimentos. As conhecidas bandeirinhas com quadras populares vieram reforçar essa tradição e continuam hoje a acompanhar milhares de manjericos vendidos durante o mês de junho.
Apesar de ser um dos símbolos mais reconhecidos da festa, o manjerico continua a surpreender quem visita a cidade. Segundo Joaquim Araújo, muitos turistas ficam intrigados com o significado desta planta e com o papel que desempenha nas celebrações sanjoaninas, tal como acontece com o alho-porro ou os martelinhos. Para quem cresceu no Porto, porém, o cheiro do manjerico continua a ser um dos sinais mais evidentes de que o São João chegou.
Terminada mais uma edição das festas, os manjericos permanecem nas casas de muitos portuenses como recordação da noite mais longa do ano. E, para quem os souber cuidar, podem durar muito para além de junho. Segundo o produtor, com água, luz e alguma atenção, estas plantas conseguem sobreviver durante vários meses, prolongando em casa um pouco do espírito do São João.
Fonte: Reportagem de Gina Macedo - Agenda Porto – "Cheira a manjerico, cheira a São João!" e "São João do Porto de A a Z com Germano Silva".