Temos o metro que nos liga, que nos transporta e de que nos orgulhamos. Mas quando chegam os dias de calor, a linha de excelência transforma-se numa estufa sobre carris. É preciso mais do que lamentos: é preciso apresentar soluções.
O Porto é uma cidade que não pára. E não pára, em grande parte, porque tem uma rede de metro que revolucionou a forma como vivemos e nos movemos. É uma obra de engenharia notável, a espinha dorsal da nossa mobilidade diária e o primeiro cartão de visita para quem aterra no Aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas esta semana, com os termómetros a bater nos 37 graus, o orgulho derreteu.
Na quinta-feira, 25 composições tiveram de recolher à oficina porque o sistema de ar condicionado colapsou. Nos veículos que continuaram a circular, sobretudo os Eurotram, com 25 anos de serviço e as suas imensas superfícies vidradas, o cenário foi dantesco. Há relatos de desmaios, carruagens sobrelotadas e utentes em exaustão.
Vendemos o Porto ao mundo como um destino turístico de excelência, mas que imagem passamos para fora quando os turistas e, sobretudo, os portuenses que vão trabalhar são tratados como carga humana num contentor sem ventilação?
Nas redes sociais, a indignação é crua e legítima: "Andassem eles como o povo e aquela m**** até congelava". A gestão admite falhas e justifica que o sistema não foi projetado para estas temperaturas. Mas a verdade é que 15% das queixas anuais são sobre o ar condicionado. O problema não é uma surpresa meteorológica; é uma inércia crónica.
Ao longo de 25 anos, investimos (e bem) centenas de milhões de euros na expansão da rede. Só a nova Linha Rosa custará mais de 300 milhões. Discute-se investir 20 milhões ao ano em passes gratuitos para toda a área metropolitana. No entanto, parece impossível encontrar uma fração ínfima desse valor para modernizar a refrigeração das 72 carruagens mais antigas. De que serve uma viagem gratuita se a carruagem for inabitável?
Não se trata de apontar o dedo ao acaso, mas de exigir pragmatismo. Se não há dinheiro para substituir a frota amanhã, há soluções simples, práticas e baratas para hoje. Porque não aplicar películas de alta retenção térmica e proteção UV nas imensas janelas dos Eurotram, reduzindo drasticamente o efeito de estufa? Porque não instalar sistemas de ventilação auxiliar? Ou, numa lógica básica de gestão de frota, porque não reencaminhar as carruagens mais antigas para as linhas maioritariamente subterrâneas nos dias de calor extremo, deixando os veículos mais recentes e bem equipados para as linhas de superfície?
O Porto não aceita que lhe peçam para suar em silêncio. A mobilidade sustentável não pode ser um sacrifício físico.
E a pergunta que fica no ar não é sobre os milhões do futuro, mas sobre o bom senso do presente: será que quem decide estas prioridades anda de metro nos dias de calor? Ou simplesmente projeta a cidade e toma decisões a partir do conforto do gabinete, onde o ar condicionado, curiosamente, nunca falha?
Sérgio Santos
Diretor | Momento do Porto