Quarenta anos de Europa no Porto: o que ganhámos, o que ficou por fazer e o que ainda podemos ser.
Ontem, o Porto foi palco de uma celebração que merece ser vivida com orgulho genuíno. A Comissão Europeia escolheu esta cidade para assinalar os 40 anos da adesão de Portugal à União Europeia. Uma escolha que não é aleatória: o Porto é hoje uma das cidades mais reconhecidas da Europa, um destino de talento, de investimento e de cultura.
Mas celebrar com seriedade implica também perguntar: quarenta anos depois, fizemos tudo o que poderíamos ter feito com quatro décadas de integração europeia? O que é que a Europa fez pelo Porto? E o que é que Portugal fez ao Porto em nome da Europa?
A resposta honesta começa pelo reconhecimento. A Europa transformou o Porto de forma concreta e visível. As infraestruturas que hoje utilizamos, como estradas, metro, requalificação urbana e universidades reforçadas, foram em grande parte possíveis graças a fundos europeus. A abertura de fronteiras trouxe mobilidade, intercâmbio académico e uma geração de portuenses que estudou, trabalhou e regressou com outra visão do mundo. O Porto de 2026 não seria o Porto que é sem a Europa. Isso é inegável e merece ser dito com clareza.
E, no entanto, os números convidam à reflexão. A Área Metropolitana de Lisboa está a 129% da média europeia de PIB per capita. A Área Metropolitana do Porto está a 71%. Não é uma diferença de circunstâncias. É uma diferença de escolhas.
Portugal recebeu décadas de fundos de coesão europeia com o propósito declarado de reduzir assimetrias. O resultado é que essas assimetrias se aprofundaram. Estes dados foram apresentados este ano no 11.º Congresso Nacional dos Economistas, numa análise que utilizou o Porto como caso de estudo.
Quando olhamos para cidades com percursos semelhantes ao nosso, como Bilbau, que se reinventou com autonomia e investimento estratégico, ou Lyon, que construiu uma identidade económica própria e distinta da sua capital, percebemos que o potencial existe. A questão é saber se os próximos 40 anos serão capazes de traduzir esse potencial em resultados mais equilibrados para quem vive e trabalha nesta cidade.
A Europa não é apenas fundos. É um projeto de valores: coesão, subsidiariedade e proximidade. São esses valores que nos devem guiar quando avaliamos o que foi feito e o que ainda falta fazer.
O Momento do Porto não tem respostas para estas questões. Tem perguntas. E é esse o papel do jornalismo: observar, constatar e deixar no ar as interrogações que a celebração, por si só, não responde. A integração europeia não é um destino. É um processo. E o Porto, que ontem foi escolhido para o celebrar, tem toda a legitimidade para querer ser protagonista desse processo, e não apenas o seu cenário mais fotogénico.
Quarenta anos de Europa. Com gratidão pelo que foi feito. Com a ambição de quem sabe que chegou a hora de deixar de ser apenas beneficiário e começar a ser protagonista de verdade.
MOMENTUM
Editorial do Momento do Porto
Por Sérgio Santos, diretor do Momento do Porto