Entre o breaking, a produção audiovisual e a criação de eventos, Deivison, conhecido por Aka.Dvs fala sobre os desafios da comunidade, o impacto do The World Battle e a importância de construir espaços onde todos se sintam bem-vindos.
Entre 24 e 30 de agosto, Deivison Souza de Mello regressa ao The World Battle sem escolher apenas um lado da pista. O b-boy e produtor audiovisual estará atrás das câmaras, mas também dentro da roda, inscrito na batalha de Top Rock. Depois de ter apresentado parte da programação e levado o Top Rock Lovers ao festival, em 2025, Deivison prepara-se para viver mais uma edição de um evento que reúne, no Porto, diferentes expressões da dança, do desporto e da cultura urbana.
“Este ano vou estar atrás das câmaras, mas também a batalhar. Vou entrar na batalha de Top Rock”, conta.

O resto, deixa em aberto. “O The World Battle tem um programa muito extenso e está sempre cheio de surpresas. Muita coisa pode acontecer.”
“Descobri que há o Porto dos turistas e o Porto dos locais”
O percurso de Deivison no Porto começou pela fotografia. Quando ainda vivia no Brasil, já acompanhava transmissões de competições internacionais de breaking e conhecia o “The World Battle" à distância. Ao chegar a Portugal, passou primeiro por Lisboa, fez algumas viagens pela Europa como Holanda e Espanha e só depois veio ao Porto. Logo que chegou, procurou os treinos da comunidade local e começou a aproximar-se da cena.
Num evento no MXM Art Center, conheceu Joana Teles e foi apresentado a Max Oliveira, responsável pelo The World Battle. Ofereceu-se para fotografar e filmar, entregou o material poucos dias depois e recebeu, quase de imediato, um novo convite profissional.
“O audiovisual foi a porta que se abriu para eu entrar. Eu sabia que podia somar muito ao que eles já faziam e tinha convicção disso”, recorda.

A cidade, por sua vez, conquistou-o a partir da margem de Gaia.
“Lembro-me da vista de Gaia para o Porto. Fui ao Jardim do Morro, vi o pôr do sol e a ponte, sentei-me a beber uma cerveja e pensei: Aqui é mesmo Europa. Foi aí que virei a chave e decidi ficar.”
Não era essa a intenção inicial. Deivison contava já com vários anos de carreira, clientes e trabalho no Brasil. A mudança nasceu tanto da vontade de se desafiar enquanto b-boy como da possibilidade de explorar novos caminhos profissionais no audiovisual.
“Eu não precisava de vir, mas havia uma coisa embrionária do b-boy e do audiovisual. Queria deixar de ver as pessoas que admirava apenas pela televisão e estar onde as coisas aconteciam.”
Com o tempo, a relação com a cidade deixou de estar presa à sua primeira impressão. Muitos dos passeios começam por causa dos cães que ele e Giulia, sua companheira, recebem temporariamente em casa através do trabalho secundário dela. A presença dos animais torna a casa dos dois mais alegre e leva Deivison a sair, andar até aos jardins ou à Ribeira e percorrer o Porto devagar, sem auscultadores.
“Gosto de andar a pé, sem auriculares, para captar a cidade. Descobri que há o Porto dos turistas e o Porto dos locais”, conta.
“É nas tascas, nas bifanas, nas tripas e nas histórias partilhadas por quem vive cá que encontra um lado mais próximo e humano da cidade, e a sensação de, pouco a pouco, ser tratado como “um dos nossos”.
Esse interesse pelo quotidiano e pelas histórias de quem encontra revela também um Deivison para lá dos créditos profissionais. As ideias de pertença, cuidado e comunidade, tão presentes na forma como vive o Porto, atravessam uma história pessoal que começou muito antes da chegada a Portugal.
O silêncio do Porto faz barulho
Trabalhar na cidade exigiu também uma adaptação. Deivison descreve o Porto como um meio mais reservado, onde a circulação das imagens e a divulgação dos projetos seguem um ritmo diferente daquele a que estava habituado no Brasil. Há espetáculos com pouca presença nas redes sociais que, ainda assim, enchem salas, porque a informação circula dentro de grupos, redes, e na conversa diária. No início, essa forma mais silenciosa de trabalhar entrou em conflito com uma personalidade que o próprio define como expansiva.
“Tive de perceber a atmosfera e a forma como as coisas funcionam. Adaptar-me foi difícil, porque descobri a minha identidade como uma identidade mais expansiva”, explica.
Apesar das dificuldades de adaptação, Deivison faz questão de distinguir o funcionamento mais fechado da forma como foi acolhido pessoalmente.
“Fui muito bem recebido. Não cheguei aqui a depender das pessoas para fazer alguma coisa: cheguei a propor e a oferecer o que sabia fazer. Esperei o tempo de cada coisa”, afirma.
O audiovisual abriu a primeira porta, depois veio a dança, a produção e os convites para apresentar eventos. “Não tenho como dizer que me receberam de portas fechadas. Tenho o apoio de muita gente no Porto, em Lisboa e também nas ilhas.”
Essa aprendizagem também se reflete no modo como ocupa o microfone. Deivison acredita que ser brasileiro lhe permite trazer outra energia aos eventos, mas sublinha a importância de não se sobrepor à cultura que o recebeu.
“Consegui encontrar o meu lugar como host pelo facto de ser brasileiro, mas respeitando estes lugares. Encontrei um canto onde consigo ser quem sou, trazer o meu background e não atravessar a cultura local.”
Ao mesmo tempo, reconhece que foi a partir de Portugal que o seu trabalho audiovisual ganhou projeção internacional, levando-o a projetos em França, Espanha e Japão.

“Talvez os caminhos que eram óbvios para mim no Brasil se tenham transformado noutras possibilidades que eu nem imaginava.”
Para ele, apresentar ou produzir um evento começa pelo cuidado com quem entra no espaço. É uma ideia que liga às festas de garagem da infância, quando receber alguém significava saber quem era, do que precisava e como fazê-lo sentir-se bem.
“Este é o meu princípio enquanto produtor. Preciso que as pessoas se sintam bem, porque isso vai gerar um ótimo resultado, ou pelo menos o mais próximo possível do esperado. É um dia na vida dessas pessoas, que ficará marcado na memória delas, e também precisa de ser bom. Caso contrário, não valeu a pena”, comenta.
Essa preocupação nasceu também de falhas que encontrou enquanto participante: nomes pronunciados incorretamente, ausência de alguém para receber os artistas, falta de água, casas de banho pouco cuidadas ou pausas que dispersam a energia do público. Assim, ao criar os próprios eventos, procurou responder a esses problemas com atenção aos detalhes, da receção à pesquisa sobre a história de cada convidado.
Um evento pensado para criar ligações
Um dos momentos mais marcantes do seu percurso no Porto aconteceu na edição de 2025, quando o Top Rock Lovers, projeto que já tinha realizado no Brasil, integrou o programa do The World Battle. Deivison viu uma ideia nascida do outro lado do Atlântico ganhar espaço num encontro internacional.
“Fazer um evento que saiu da minha cabeça no Brasil, com o intuito de unir pessoas, dentro de um evento mundial, foi incrível”, afirma.
Mais do que os nomes convidados ou a dimensão do palco, guarda a imagem das pessoas a dançarem e a sorrirem juntas.
“Consegui dizer-lhes: Dancem juntas, liguem-se. Ali pensei: cheguei, consegui. Passou-me pela cabeça todo o filme, desde o Guarituba, a minha mãe e todas aquelas histórias.”

Ao falar do impacto dos eventos de dança no Porto, Deivison destaca a capacidade da cidade para criar pontes entre a cultura urbana, o turismo, o desporto, a política e as instituições públicas, sem se afastar das pessoas que mantêm esta cultura viva ao longo de todo o ano. Esta articulação, sublinha, não se limita às grandes competições mas traduz-se também em oportunidades de trabalho para artistas em hotéis, restaurantes e diferentes iniciativas da cidade.
“Não há como falar dos eventos de dança no Porto sem falar do Max. Ele conseguiu aproximar os organismos públicos, sobretudo os ligados ao turismo, destes eventos”, considera, referindo-se a Max Oliveira, organizador do “The World Battle".
Para Deivison, o crescimento dos eventos deve ser acompanhado pela valorização profissional de quem faz parte da comunidade. “Não é apenas o breaking ou a cultura por si só. Há o entendimento de que estas pessoas precisam trabalhar, sobreviver e pagar as contas.”
Essa projeção internacional volta a ganhar força este ano com a realização do WDSF Breaking for Gold International Series Youth Open, integrado no The World Battle, e também responsável por trazer ao Porto atletas de vários países. Pouco tempo depois, o breaking estará também presente nos Jogos Olímpicos da Juventude, em Dakar. Para Deivison, esse percurso demonstra a capacidade do Porto para negociar e estabelecer ligações entre os eventos, o turismo, o desporto e as políticas públicas.
Mas o impacto não se mede apenas pela dimensão internacional das competições. Deivison enfatiza também o trabalho desenvolvido através do “Desporto no Bairro”, projeto no qual b-boys dão aulas a crianças e jovens de diferentes comunidades da cidade.
“Tem dado frutos. Há jovens que estão a começar a participar até nos próprios eventos”, conta.
É esta ligação entre os grandes palcos e o trabalho realizado nos bairros que o leva a considerar que “o Porto está realmente muito avançado nesta questão”.
Abrir os portões da comunidade
O acolhimento que recebeu não impede o artista de identificar problemas na cultura urbana portuguesa. Na sua leitura, existem barreiras entre grupos, bailarinos e produtores culturais, muitas vezes alimentadas por conflitos pessoais antigos. Para descrever esse controlo informal sobre quem pode entrar, participar ou circular em determinados espaços, utiliza a palavra inglesa “gatekeeping”. Uma história que passou quando era miúdo reforça esse conceito. Ele conta que quando tinha cerca de 11 ou 12 anos, encontrou uma escola de dança enquanto ia pagar a conta da água. Tentou entrar, mas foi impedido por estar sozinho e não ter um responsável. Acabou por dançar do lado de fora do vidro.
“Existe um controlo sobre quem entra, quem não entra, quem faz parte e quem não faz. É uma coisa muito comum e muito velada. As pessoas acham que não se percebe, mas percebe-se”, afirma.
Para Deivison, esta lacuna torna-se ainda mais evidente porque Portugal conta com artistas capazes de competir e trabalhar a nível internacional, mas que nem sempre encontram, no próprio país, iniciativas e condições que promovam a circulação e a colaboração entre si.
A resposta para esses percalços, acredita, passa antes de mais, por encontros regulares e acessíveis. Mais festas de hip-hop permitiriam aos DJs trabalhar sem sair da cidade, aproximariam bailarinos, MCs, produtores, público e dariam a novas pessoas a possibilidade de conhecer a cultura sem sentirem que precisam de autorização para entrar.
“A festa faz com que as pessoas conheçam a cultura de uma forma natural, e isso faz a cultura crescer de forma orgânica.”
Além das festas, propõe mais jams, feiras de vinil, brechós e pequenas batalhas. São momentos de troca nas ruas e praças, reunindo diferentes expressões, do breaking e do house ao rap, ao popping e ao locking. Uma comunicação mais aberta poderia também levar os eventos além dos círculos habituais, embora reconheça que a falta de apoios, patrocínios e prémios limita a ambição de muitos produtores.
No fundo, a solução que apresenta é a mesma que procura aplicar quando produz: abrir espaço, acolher e fazer com que cada pessoa se sinta parte.
“É uma cena, uma comunidade. Não podemos fechar os portões uns aos outros.”
Enquanto se prepara para voltar ao The World Battle, Deivison mantém a mesma ideia que atravessa o seu trabalho como b-boy, produtor e comunicador: criar condições para que as pessoas se encontrem.
“Quero promover eventos, situações e encontros que mostrem como é importante ligarmo-nos de forma verdadeira, olhar nos olhos, saber ouvir, abraçar e cuidar do outro.”
No final de agosto, essa intenção volta a ganhar corpo no Porto. Desta vez, de ambos os lados da câmara.
Essa vontade de criar espaços onde todos se sintam bem-vindos não nasceu apenas do seu trabalho nos eventos. Está ligada ao próprio percurso de Deivison, às pessoas que o moldaram e à forma como encontrou na dança um sentido de pertença e uma maneira de estar no mundo. Por detrás do b-boy e do produtor audiovisual que hoje contribui para a cultura urbana do Porto, há uma história de infância, família, encontros, fotografia e sonhos ainda em construção. É essa história (e o homem que existe para além dos palcos e das câmaras) que damos a conhecer no “Saiba mais”.