Às 15h50 de sábado, cerca de cem pessoas deram as mãos à volta do Mercado do Bolhão a cantar "o Bolhão é nosso e há de ser". Numa das portas, mais de uma dezena de comerciantes do mercado seguravam cartazes a dizer que a associação que convocou o abraço não os representa. A divisão que há semanas se lia nos comentários do Facebook passou para a rua.

O que aconteceu

A ação "Pelo Porto, Todos ao Bolhão" foi convocada pela Associação do Comércio Tradicional Bolha de Água, que gere a página Nós Somos Bolhão. Começou às 14h30 com dois painéis onde os participantes colavam respostas a duas perguntas, que cidade querem e como intervir nela: "queremos casas para viver", "uma cidade à medida das pessoas que cá vivem", "dar mais força ao movimento associativo". O cordão humano, previsto para as 15h30, formou-se por volta das 15h50, segundo o relato da Lusa publicado pelo Observador.

Foi nessa altura que o Grupo de Trabalho de Comerciantes do Bolhão, outra associação com bancas no mercado, se juntou numa das entradas. Gritavam "o Bolhão é de quem trabalha" e acusavam parte dos participantes de não saber o que ali fazia nem comprar no mercado. Um comerciante de pão explicou à Lusa que a concentração foi espontânea e que serviu para mostrar a união de quem lá trabalha desde as seis da manhã.

A presidente da Bolha de Água, Helena Ferreira, lamentou o momento, que disse não honrar o mercado, e lembrou que a ação tinha autorização. A associação, afirmou, defende "o último mercado de frescos da cidade" e o comércio tradicional.

O que está em causa

Por trás do abraço há três factos concretos. A hasta pública de 14 de julho, em que a GO Porto atribuiu cinco licenças de bancas por 22 910 euros mensais no total, com uma banca de peixe arrematada por 7 550 euros por mês, quando o valor base era de 343,80 euros, segundo a Lusa. A providência cautelar que a associação interpôs a 30 de julho contra o Município e a GO Porto, admitida pelo Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto em agosto, para travar os contratos dessa hasta. E a petição "Devolver o Mercado do Bolhão ao Porto", criada em setembro de 2025, que a associação quer agora levar à Assembleia Municipal e que no sábado tinha 1 154 assinaturas.

A associação afirma que resta uma única banca de peixe fresco no mercado e que as outras se transformaram em pequenos restaurantes. A GO Porto já respondeu, em declarações anteriores, que o concurso das bancas cumpre o regulamento do mercado.

A cidade dividida

A publicação da Nós Somos Bolhão na véspera da ação teve 86 reações e 54 comentários, e eles não dizem todos o mesmo. Há quem escreva que querem "estragar o que está a ser um símbolo na nossa cidade" e quem responda que quem estraga o símbolo é quem transforma o mercado num "vulgar centro comercial de comidas e bebidas". Há quem pergunte quantos dos comentadores fazem lá compras, e quem admita que vai, "mas pontualmente". Um leitor resumiu: "o Bolhão acabou há cinco anos". Outro: "eu vou lá estar".

No sábado, uma participante disse à Lusa que o mercado está a perder "a sua alma" e que os portuenses estão a ser afastados pela entrada em massa de turistas. Outra comparou-o aos mercados que visita noutras cidades, onde encontra "a personalidade do sítio", e concluiu que este Bolhão deixou de ter a do Porto. Do outro lado da porta, os comerciantes do Grupo de Trabalho diziam que a causa só é positiva quando é "devidamente abraçada e bem justificada".

Ao fim da tarde, outra rua

Duas horas depois, o Porto voltou a sair à rua. Centenas de pessoas juntaram-se ao protesto "Não dá mais para viver assim", convocado para a Praça de D. João I por uma plataforma de dezenas de organizações, contra o custo de vida e os preços da habitação, segundo a RTP. Em Lisboa, Braga, Aveiro e Funchal houve protestos iguais. No Porto, o sábado teve dois.

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