Este sábado, a partir das 14h30, a Associação do Comércio Tradicional Bolha de Água, que assina como "Nós Somos Bolhão", convoca a cidade para o Mercado do Bolhão. Chama-lhe "Pelo Porto, todos ao Bolhão" e descreve-a como um abraço coletivo ao mercado, com cartazes feitos em casa sob o lema "Devolver o Porto ao Porto", uma votação dos três melhores, um cabaz como prémio e uma sessão participativa. No evento oficial, pede-se que o encontro no mercado seja a partir das 15h00. Uma semana antes, cerca de 200 pessoas tinham já respondido ao convite nas redes.

Não é uma manifestação, insiste a associação; é "muito mais". O texto do evento fala de uma cidade cujas transformações "nos hostilizam" e "nos espoliam do que é nosso", e de um direito a um mercado, a habitação, a jardins e a espaço público. Mas o ponto de partida é concreto e tem dois meses: a 30 de julho, a Bolha de Água entrou com uma providência cautelar no Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto contra o sexto concurso de bancas e lojas do mercado. Alega que as regras favorecem a restauração e que as rendas alcançadas, entre 3 660 e 7 550 euros por mês para bancas de peixe, fruta e vegetais, são incompatíveis com a venda de produtos frescos. Em agosto, segundo o Diário de Notícias, o tribunal admitiu o pedido e suspendeu os atos de execução do concurso. A GO Porto, que gere o mercado, garante que o concurso respeita o regulamento.

A conta que os comerciantes fazem é simples e repetem-na há meses: uma banca de peixe que pague 7 550 euros de renda tem de vender muito carapau para sobreviver, e quem licita esses valores não quer vender carapau. A 3 de outubro, a associação publicou uma longa exposição pública em resposta a uma entrevista do presidente do Município ao Diário de Notícias, em que este dizia que a tradição tem de ficar atrás das bancas, mas que o "antigo Bolhão morreu". A publicação teve mais de uma centena de reações e dezenas de comentários em poucas horas.

A associação existe desde 2008 e representa, segundo diz, mais de metade dos comerciantes do mercado, incluindo os chamados "históricos". Em abril de 2024 publicou uma declaração de princípios: o Bolhão deve ser um mercado público, tradicional e de frescos, com gestão pública competente e os comerciantes como parceiros com voz; e deve ser o centro de um "quarteirão alimentar", não de uma praça de restauração. Em setembro de 2025 lançou uma petição para que o futuro do mercado seja debatido na Assembleia da República. É esse percurso, de dois anos de comunicados, exposições e tribunais, que sai pela primeira vez à rua este sábado.

Para quem não é comerciante, a pergunta que o abraço faz é outra: o Bolhão renovado, cheio de gente e de turistas, com bancas que vendem tapas e marisco para comer ali, ainda é o mercado onde os portuenses vão às compras? Os comerciantes dizem que é a última oportunidade de a cidade ter um mercado de frescos e tradicional. O Município diz que o mercado é um sucesso e que o passado não volta. Hoje à tarde, quem for ao Bolhão escolhe de que lado se põe.

Onde e quando: "Pelo Porto, todos ao Bolhão", sábado, 10 de outubro, a partir das 14h30 (encontro no mercado a partir das 15h00, segundo o evento), Mercado do Bolhão. Levar cartaz com o lema "Devolver o Porto ao Porto". Organização: Associação do Comércio Tradicional Bolha de Água / Nós Somos Bolhão.

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