Não houve ordem de despejo nem polícia à porta. Houve uma renda impossível, depois outra, e um dia uma mudança para fora. Todos conhecemos alguém assim. Muitos de nós somos esse alguém.
O filho que saiu de casa dos pais e foi viver para fora do concelho, porque no Porto um quarto custava o ordenado. A mãe que, depois do divórcio, voltou para casa dos pais com os miúdos. O casal que trabalha na Baixa e só cá vem para trabalhar. Nenhum deles foi expulso. Simplesmente deixou de haver lugar para eles.
Isto não é conversa de café. Em setembro de 2021, arrendar no Porto custava 10,8 euros por metro quadrado. Agora custa 19, mais 76% em cinco anos. Comprar casa nunca foi tão caro. Entre os Censos de 2011 e os de 2021, a cidade perdeu 5 629 residentes.
Há um sinal que diz tudo. O Município anunciou, a 28 de setembro, que vai estender os transportes gratuitos aos seus próprios trabalhadores que não moram no Porto, porque a maioria não vive na cidade. São as pessoas que limpam as ruas, atendem ao balcão e fazem a cidade funcionar. Quantas delas vivem lá fora por opção, e quantas porque cá dentro não conseguem pagar uma casa?
E enquanto quem é de cá ia saindo, a cidade ia arranjando lugar para quem vem de fora. Em 2011 havia no Porto 89 alojamentos locais. Hoje há 10 821. Num só ano, entraram nos serviços municipais 87 processos de novos hotéis. Quando, em março de 2025, foi proposta uma pausa de doze meses no licenciamento hoteleiro, o executivo municipal chumbou-a.
O Porto ganha com quem dorme três noites. E perde quem queria ficar trinta anos.
Sejamos justos. O turismo não é o inimigo. Salvou fachadas que estavam a cair, abriu restaurantes, deu emprego a milhares de pessoas. E as rendas desceram 4,4% este ano, pela primeira vez desde 2021. Mas uma descida de 4% depois de uma subida de 76% não traz ninguém de volta.
As respostas oficiais chegam devagar. As 455 casas de renda acessível anunciadas em Campanhã só ficam prontas em 2027 e 2029. Há 6 400 prédios com indícios de estarem vazios, e a resposta foi uma carta aos proprietários. Quem recebeu um aumento de renda este mês não consegue esperar por uma data de inauguração.
Outras cidades já escolheram. Em Amesterdão, desde 2024, só abre um hotel novo quando fecha outro. Barcelona decidiu não renovar, a partir de novembro de 2028, as 10 101 licenças de apartamento turístico da cidade, para que voltem a ser casas. Em Vancouver, a taxa sobre casas vazias ajudou a reduzir as habitações desocupadas em 67% em sete anos.
O Porto não precisa de copiar nenhuma delas. Precisa de assumir uma regra que se perceba de uma só vez:
Uma cama, uma casa.
Cada nova cama turística que a cidade licenciar passa a ter uma contrapartida para quem cá vive: uma casa construída, reabilitada ou paga, a renda acessível, na mesma freguesia. Quem quiser abrir um hotel no Porto continua a poder fazê-lo. Só não o pode fazer à custa de quem mora ao lado. E, até lá, que se publique todos os meses uma conta simples: quantas camas turísticas novas e quantas casas para quem fica. A cidade tem o direito de saber de que lado pende a balança.
Uma cidade pode receber muito bem quem chega. Mas uma cidade que deixa de escolher quem fica acaba por ficar só com quem está de passagem.
E na sua família, quem foi o primeiro a ter de sair do Porto?
Sérgio Santos
Diretor | Momento do Porto