Entre o breaking, a produção audiovisual e a criação de eventos, Deivison, conhecido como Dvs, partilha o que mais admira na cultura urbana, o impacto do Breaking e defende a criação de espaços onde todos se sintam bem-vindos.

O Porto começou por ser apenas uma ideia e, aos poucos, tornou-se um lugar de pertença. Deivison Souza de Melo, conhecido como Dvs, aprendeu a conhecer a cidade para além da imagem que atrai quem a visita.

“Descobri que há o Porto dos turistas e o Porto dos locais.”

É nesse lado menos visível que tem construído o seu percurso, aproximando-se das pessoas e dos espaços que dão vida à cultura urbana local.

Foto: Divulgação @aka.dvs - Top Rock Lovers Brasil 2020

Foi pela fotografia que começou a encontrar o seu lugar na cidade. Quando ainda vivia no Brasil, já acompanhava transmissões de competições internacionais de breaking e conhecia o The World Battle à distância. Ao chegar a Portugal, passou primeiro por Lisboa, fez algumas viagens pela Europa, como à Holanda e a Espanha, e só depois veio ao Porto. Logo que chegou, procurou os treinos da comunidade local e começou a aproximar-se da cena.

Num evento no MXM Art Center, conheceu Joana Teles e foi apresentado a Max Oliveira, produtor do The World Battle. Ofereceu-se para fotografar e filmar, entregou o material poucos dias depois e recebeu, quase de imediato, um novo convite profissional. É também atrás das câmaras que regressa este ano ao festival, integrando a equipa responsável pelo registo audiovisual.

“O audiovisual foi a porta que se abriu para eu entrar”, recorda.

A cidade, por sua vez, conquistou-o a partir da margem de Gaia.

“Lembro-me da vista de Gaia para o Porto. Fui ao Jardim do Morro, vi o pôr do sol e a ponte, sentei-me a beber uma cerveja e pensei: ‘Aqui é mesmo Europa.’ Foi aí que virei a chave e decidi ficar.”

Não era essa a intenção inicial. Deivison contava já com vários anos de carreira, clientes e trabalho no Brasil. A mudança nasceu tanto da vontade de se desafiar enquanto b-boy como da possibilidade de explorar novos caminhos profissionais no audiovisual.

“Eu não precisava de vir, mas havia uma coisa embrionária do b-boy e do audiovisual. Queria deixar de ver as pessoas que admirava apenas pela televisão e estar onde as coisas aconteciam.”

Com o tempo, a relação com a cidade deixou de estar presa à primeira impressão. Muitos dos passeios começam com os cães de que ele e Giulia, a sua companheira, cuidam temporariamente em casa. A presença dos animais torna a casa dos dois mais alegre e leva Deivison a sair, caminhar até aos jardins ou à Ribeira e percorrer o Porto devagar.

“Gosto de andar a pé, sem auriculares, para captar a cidade”, conta.

Foi nesses percursos que começou a distinguir o Porto dos visitantes daquele que se revela no quotidiano de quem cá vive. É entre tascas, bifanas, tripas e histórias partilhadas que encontra um lado mais próximo e humano da cidade, aquele em que, pouco a pouco, começou a ser tratado como “um dos nossos”.

Esse interesse pelo quotidiano e pelas histórias de quem encontra revela também um Deivison para lá dos créditos profissionais. As ideias de pertença, cuidado e comunidade, tão presentes na forma como vive o Porto, atravessam uma história pessoal que começou muito antes da chegada a Portugal.

Foto: Divulgação @aka.dvs - The World Battle 2025

O silêncio do Porto faz barulho

Trabalhar na cidade exigiu também uma adaptação. Deivison descreve o Porto como um meio mais reservado, onde a circulação das imagens e a divulgação dos projetos seguem um ritmo diferente daquele a que estava habituado no Brasil. Há espetáculos com pouca presença nas redes sociais que, ainda assim, enchem salas, porque a informação circula dentro de grupos, redes, e na conversa diária. No início, essa forma mais silenciosa de trabalhar entrou em conflito com uma personalidade que o próprio define como expansiva.

“Tive de perceber a atmosfera e a forma como as coisas funcionam. Adaptar-me foi difícil, porque descobri a minha identidade como uma identidade mais expansiva”, explica.

Apesar das dificuldades de adaptação, Deivison faz questão de distinguir o funcionamento mais fechado da forma como foi acolhido pessoalmente.

“Fui muito bem recebido. Não cheguei aqui a depender das pessoas para fazer alguma coisa: cheguei a propor e a oferecer o que sabia fazer. Esperei o tempo de cada coisa”, afirma.

O audiovisual abriu a primeira porta, depois veio a dança, a produção e os convites para apresentar eventos. “Não tenho como dizer que me receberam de portas fechadas. Tenho o apoio de muita gente no Porto, em Lisboa e também nas ilhas.”

Essa aprendizagem também se reflete no modo como ocupa o microfone. Deivison acredita que ser brasileiro lhe permite trazer outra energia aos eventos, mas sublinha a importância de não se sobrepor à cultura que o recebeu.

“Consegui encontrar o meu lugar como host pelo facto de ser brasileiro, mas respeitando estes lugares. Encontrei um canto onde consigo ser quem sou, trazer o meu background e não atravessar a cultura local.”

Ao mesmo tempo, reconhece que foi a partir de Portugal que o seu trabalho audiovisual ganhou projeção internacional, levando-o a projetos em França, Espanha e Japão.

Foto: Divulgação @aka.dvs - The World Battle Japão 2025

“Talvez os caminhos que eram óbvios para mim no Brasil se tenham transformado noutras possibilidades que eu nem imaginava.”

Para ele, apresentar ou produzir um evento começa pelo cuidado com quem entra no espaço. É uma ideia que liga às festas de garagem da infância, quando receber alguém significava saber quem era, do que precisava e como fazê-lo sentir-se bem.

“Este é o meu princípio enquanto produtor. Preciso que as pessoas se sintam bem, porque isso vai gerar um ótimo resultado, ou pelo menos o mais próximo possível do esperado. É um dia na vida dessas pessoas, que ficará marcado na memória delas, e também precisa de ser bom. Caso contrário, não valeu a pena”, comenta.

Essa preocupação nasceu também de falhas que encontrou enquanto participante: nomes pronunciados incorretamente, ausência de alguém para receber os artistas, falta de água, casas de banho pouco cuidadas ou pausas que dispersam a energia do público. Assim, ao criar os próprios eventos, procurou responder a esses problemas com atenção aos detalhes, da receção à pesquisa sobre a história de cada convidado.

Um evento pensado para criar ligações

Um dos momentos mais marcantes do seu percurso no Porto aconteceu na edição de 2025, quando o Top Rock Lovers, projeto que já tinha realizado no Brasil, integrou o programa do The World Battle. Deivison viu uma ideia nascida do outro lado do Atlântico ganhar espaço num encontro internacional.

“Fazer um evento que saiu da minha cabeça no Brasil, com o intuito de unir pessoas, dentro de um evento mundial, foi incrível”, afirma.

Mais do que os nomes convidados ou a dimensão do palco, guarda a imagem das pessoas a dançarem e a sorrirem juntas.

“Consegui dizer-lhes: Dancem juntas, liguem-se. Ali pensei: cheguei, consegui. Passou-me pela cabeça todo o filme, desde o Guarituba, a minha mãe e todas aquelas histórias.”

Foto: Divulgação @aka.dvs - Top Rock Lovers + TWB 2025

Ao falar do impacto dos eventos de dança no Porto, Deivison destaca a capacidade da cidade para criar pontes entre a cultura urbana, o turismo, o desporto, a política e as instituições públicas, sem se afastar das pessoas que mantêm esta cultura viva ao longo de todo o ano. Esta articulação, sublinha, não se limita às grandes competições mas traduz-se também em oportunidades de trabalho para artistas em hotéis, restaurantes e diferentes iniciativas da cidade.

“Não há como falar dos eventos de dança no Porto sem falar do Max. Ele conseguiu aproximar os organismos públicos, sobretudo os ligados ao turismo destes eventos”, considera, referindo-se a Max Oliveira, organizador do “The World Battle".

Para Deivison, o crescimento dos eventos deve ser acompanhado pela valorização profissional de quem faz parte da comunidade. “Não é apenas o breaking ou a cultura por si só. Há o entendimento de que estas pessoas precisam trabalhar, sobreviver e pagar as contas.”

Essa projeção internacional volta a ganhar força este ano com a realização do WDSF Breaking for Gold International Series Youth Open, integrado no The World Battle, e também responsável por trazer ao Porto atletas de vários países. Pouco tempo depois, o breaking estará também presente nos Jogos Olímpicos da Juventude, em Dakar. Para Deivison, esse percurso demonstra a capacidade do Porto para negociar e estabelecer ligações entre os eventos, o turismo, o desporto e as políticas públicas.

Mas o impacto não se mede apenas pela dimensão internacional das competições. Deivison enfatiza também o trabalho desenvolvido através do “Desporto no Bairro”, projeto no qual b-boys dão aulas a crianças e jovens de diferentes comunidades da cidade.

“Tem dado frutos. Há jovens que estão a começar a participar até nos próprios eventos”, conta.

É esta ligação entre os grandes palcos e o trabalho realizado nos bairros que o leva a considerar que “o Porto está realmente muito avançado nesta questão”.

Criar mais espaços de encontro

O acolhimento que recebeu no Porto não impede Deivison de pensar sobre os caminhos que a cultura urbana ainda pode percorrer em Portugal. Na sua perspetiva, existe espaço para aproximar grupos, bailarinos, produtores e diferentes expressões artísticas, criando mais oportunidades de circulação e colaboração.

A preocupação com espaços acessíveis acompanha-o desde miúdo. Quando tinha cerca de 11 ou 12 anos, encontrou uma escola de dança enquanto ia pagar a conta da água. Tentou entrar, mas, por estar sozinho e não ter um responsável, acabou por dançar do lado de fora do vidro. A memória ajuda-o hoje a reconhecer a importância de criar portas de entrada para quem deseja conhecer e participar na cultura.

Para Deivison, Portugal conta com artistas capazes de competir e trabalhar a nível internacional. O desafio está em criar mais iniciativas que permitam a esses talentos encontrarem-se, partilharem experiências e desenvolverem projetos em conjunto.

Uma das possibilidades que apresenta passa pela realização de encontros regulares e acessíveis. Mais festas de hip-hop permitiriam aos DJs trabalhar sem sair da cidade, aproximando bailarinos, MCs, produtores e público e dariam a novas pessoas a oportunidade de conhecer a cultura de forma espontânea.

“A festa faz com que as pessoas conheçam a cultura de uma forma natural, e isso faz a cultura crescer de forma orgânica.”

Além das festas, sugere mais jams, feiras de vinil, brechós e pequenas batalhas. Momentos de troca nas ruas e praças, capazes de reunir diferentes expressões, do breaking e do house ao rap, ao popping e ao locking. Uma comunicação mais abrangente poderia também levar os eventos a novos públicos, embora a falta de apoios, patrocínios e prémios continue a condicionar a dimensão de muitas iniciativas.

No fundo, a solução que apresenta é a mesma que procura aplicar quando produz: abrir espaço, acolher e fazer com que cada pessoa se sinta parte da comunidade.

Enquanto se prepara para subir nos palcos, Deivison mantém a ideia que atravessa o seu trabalho como b-boy, produtor e comunicador: criar condições para que as pessoas se encontrem.

“Quero promover eventos, situações e encontros que mostrem como é importante ligarmo-nos de forma verdadeira, olhar nos olhos, saber ouvir, abraçar e cuidar do outro.”

Essa vontade de criar espaços onde todos se sintam bem-vindos não nasceu apenas do seu trabalho nos eventos. Está ligada ao próprio percurso de Deivison, às pessoas que o moldaram e à forma como encontrou na dança um sentido de pertença e uma maneira de estar no mundo. Por detrás do b-boy e do produtor audiovisual que hoje contribui para a cultura urbana do Porto, há uma história de infância, família, encontros, fotografia e sonhos ainda em construção. É essa história, e o homem que existe para além dos palcos e das câmaras, que damos a conhecer no “Saiba mais”.

Esta reportagem continua na segunda parte.
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