Nos últimos meses houve petições pela Sé e pela Praça Pedro Nunes, gente à volta do Bolhão, um movimento novo pelo Edifício Transparente e, esta semana, tendas na Praça D. João I. A cidade voltou a fazer barulho. Desta vez é para ficar, ou é mais uma noite de foguetes no São João?
Há qualquer coisa a mexer no Porto. Moradores que se organizam, comerciantes que se juntam, cidadãos que assinam e aparecem. Não é a cidade inteira, e seria desonesto dizer que é. Mas é mais do que havia há um ano.
Também não é a primeira vez. Em 1995, uma mobilização cívica travou a venda do Coliseu e fez nascer a associação que hoje o mantém da cidade. Em 2006, artistas e espectadores ocuparam o Rivoli durante vários dias contra a entrega da sua gestão a privados. Perderam essa batalha, mas anos depois o Rivoli voltou à gestão municipal e passou a ser o Teatro Municipal do Porto.
Até aqui, a história que gostamos de contar. Agora, a que nos custa.
O Bolhão foi salvo em 2005 pelos seus comerciantes e reabriu em 2022. Este mês, havia gente à porta a abraçar o mercado e outros a contramanifestar-se.
E o padrão repete-se. A petição pela Praça Pedro Nunes apareceu quando a obra já ia a meio. A da Sé, quando a obra de 16 milhões de euros já tinha começado. No Stop, foram precisos três anos para aparecer um pré-acordo para comprar duas salas. O Porto indigna-se, e muitas vezes com razão, mas chega quase sempre depois dos tapumes. Uma cidade que só acorda quando a obra já está no terreno não está a decidir. Está a reclamar.
E falta alguém nesta fotografia.
Esta semana, alguns jovens saíram à rua. Mas só a Universidade do Porto tem mais de 35 800 estudantes. Onde estão os outros? Onde estavam quando se assinou pela Sé, quando se abraçou o Bolhão, quando se redesenharam as praças por onde passam todos os dias? Porque estão calados? Por pressa? Por desinteresse? Porque acham que a cidade não é deles? Ou porque ninguém os chamou?
Em 1969, em Coimbra, bastou impedirem um estudante de falar para o país perceber que alguma coisa ia mudar. No Porto de 2026, ninguém os impede de falar. E, mesmo assim, ouvimo-los muito menos do que o seu número faria esperar.
Uma cidade onde os jovens se calam não precisa de inimigos. Morre sozinha, de silêncio.
Se 2026 for só fogo de vista, daqui a dez anos o Porto será um museu muito bem conservado. Bonito, cheio de visitantes e sem ninguém que lá more.
O Porto está mesmo vivo? Ou só se lembra de que está quando já é tarde?
Sérgio Santos
Diretor | Momento do Porto