Não é impressão de quem conduz: o Porto está mesmo com obras por todo o lado ao mesmo tempo. Na noite de sábado, 26 de setembro, a Plataforma de Trânsito do Município, onde ficam registados os condicionamentos autorizados, tinha 654 em vigor, espalhados por 301 ruas da cidade. Cento e cinco são cortes totais de trânsito, em 87 ruas. Cento e trinta e dois são estreitamentos de via. Os restantes 406 são ocupações de estacionamento e dez são alterações de sentido. É um retrato de um dia; não conta as intervenções de emergência nem as obras que não passam por autorização municipal.

A maior parte tem uma razão de ser: 291 condicionamentos são por obras públicas, 168 por obras particulares, 156 por cargas e descargas, 21 por bombagem de betão e dez por eventos. Quem os pede também diz muito sobre quem está a escavar a cidade: 370 são de particulares, 109 do Gabinete de Obras Públicas do Município, 77 da Águas do Porto, 46 de outros serviços municipais, 31 da DomusSocial, a empresa municipal de habitação, e 11 da EDP.

O que transforma obras em exaustão é o tempo. Dos 654 condicionamentos em vigor, 133 começaram há mais de um ano e 183 têm data de fim para lá de 2026. A duração média prevista, entre a data de início e a de fim registadas, anda nos dez meses. O corte total mais antigo ainda ativo é o da Rua de Santa Senhorinha, para uma obra particular, com início em fevereiro de 2024 e fim previsto em março de 2027. E o ritmo não abranda: 117 condicionamentos começaram em setembro, 29 deles só desde segunda-feira, 21.

Os cortes totais por obras desenham um mapa da cidade em estaleiro. Há bairros inteiros com ruas fechadas pelo Município: Requezende, o Monte da Estação e os Ferroviários, o Bairro do Leal, a Presa Velha, o Priorado, a Rua da Pasteleira. Há a Águas do Porto a fechar ruas no Amial e nas Antas, entre a Rua de Antero de Araújo, a Rua de Augusto Gil, a Rua de Pedro Hispano e a Rua de João Corregedor da Fonseca, e no Bicalho e na Boa Viagem, na Foz. Há obras particulares a cortar a Calçada da Boa Viagem até ao fim do ano, o Barão de São Cosme até 2027 e a Via do Castelo do Queijo até outubro. E há um pormenor que explica parte do caos de há uma semana em Cedofeita: a obra da Rua do Breyner, que empurrou o trânsito para a rua pedonal, não aparece na plataforma entre os condicionamentos programados em vigor.

Nas redes sociais, a paciência acabou antes das obras. Num vídeo publicado no TikTok na sexta-feira, um criador da cidade resume a queixa que se repete: o problema não são as obras, é abrir frentes por toda a cidade ao mesmo tempo, bloquear acessos e eliminar alternativas, e depois esperar que milhares de pessoas se desenrasquem. Nos comentários, sem nomes, lê-se o custo por dia. Um condutor diz que de Massarelos à Sé, dois quilómetros, tem demorado entre 55 minutos e uma hora e dez. Outra pessoa conta que na Rua de Costa Cabral se anda a 30 à hora e que, acabada a obra, o trânsito ficou pior. Alguém descreve a "gincana" na rua lateral do Hospital de São João para criar um corredor de autocarro. Um utente da STCP diz que o 901 demorou meia hora da Trindade à Mouzinho da Silveira. Outro comenta que junto a São Bento está igual. E há quem lembre que dizer "usem transportes públicos" não serve a um comercial com cinco clientes para visitar num dia nem a quem trabalha numa zona industrial sem autocarro à hora certa.

O que não há, em lado nenhum, é uma conta de quantas pessoas isto atinge por dia. O Município publica cada condicionamento, com rua, troço, motivo, requerente e datas, mas não estima quem passa por ali. A única medida disponível é a que cada pessoa faz no carro, no autocarro ou a pé: os minutos a mais, todos os dias, até à data de fim que está escrita na plataforma e que, em 183 casos, é já no ano que vem.

Onde e quando: os condicionamentos de trânsito em vigor podem ser consultados por qualquer pessoa em transito.cm-porto.pt, no mapa da Plataforma de Trânsito do Município, com rua, troço, motivo, entidade e datas de início e fim.

Share this article
The link has been copied!