Na mesma frente de mar, entre o Castelo do Queijo e a Praia Internacional, há dois edifícios que já estiveram os dois na lista de demolições do plano da orla costeira. Um, o Edifício Transparente, continua marcado para demolição parcial, com cerca de 600 pessoas a trabalhar lá dentro e uma petição a correr para que fiquem. O outro, a antiga discoteca Kasa da Praia, fechada desde 2020 e devoluta, foi salvo a 29 de setembro: o Município aprovou cedê-lo até 2040 à Ocean Race, a empresa dona da mais antiga regata à volta do mundo, para aí instalar a sua sede global e um futuro Museu dos Oceanos. A decisão abre uma pergunta que a cidade já está a fazer nos comentários: para quem é, afinal, a frente de mar do Porto?
Os números do projeto são públicos. A adaptação do edifício para a sede da Ocean Race custa até 3 milhões de euros; o Museu dos Oceanos, cerca de 4 milhões; e o Turismo de Portugal anunciou 48 milhões de euros de investimento no evento. O Jornal de Notícias calculou um total que pode superar os 70 milhões, com cerca de 22 milhões a cargo do Município. Em troca, a partida da regata principal passa a ser no Porto nas edições de 2031, 2035 e 2039, em vez de Alicante, onde a Ocean Race tem hoje a sede. O edifício, que antes de ser discoteca foi colégio e antes disso subestação dos elétricos, passou do Estado para o Município em julho.
O argumento oficial é económico: a sede traz um "hub" de economia azul, investigação, emprego qualificado e um "novo perfil de turista". A reação de quem vive na cidade, lida nos comentários públicos à notícia, é mais dividida. Há quem ache que mais vale um museu do que mais um hotel, e que o edifício já devia ter saído do abandono há muito. Há quem pergunte como é que um edifício com problemas conhecidos de inundações deixa de os ter. E há quem resuma a desconfiança numa frase: para os outros nunca falta dinheiro, aos milhões. Outro comentário é mais seco: muito útil para os portuenses, só que não.
Do lado de lá da praia, a campanha "Transparente Vivo" continuou esta semana a publicar retratos de quem trabalha no edifício, com um dado novo: mais de 600 pessoas de mais de 100 empresas circulam diariamente pelos seus corredores, segundo o movimento. A petição pede a suspensão da demolição e um processo de diálogo. O Município disse em julho que divulgaria os prazos até ao fim do ano e aponta para 2027. Para já, a única certeza é que o edifício ao lado ganhou uma segunda vida, e o Transparente não.
O que esta notícia não pode dizer, porque ninguém o mediu, é se o investimento na Ocean Race afasta ou aproxima os portuenses da sua praia. O que pode dizer é o que está documentado: um edifício devoluto recebe 70 milhões de euros públicos para atrair um turismo diferente; um edifício cheio de gente continua à espera de uma data para sair. A pergunta sobre para quem se faz a frente de mar fica em aberto, e é a cidade que a vai responder.
Onde e quando: Kasa da Praia, entre o Castelo do Queijo e a Praia Internacional; cedência à Ocean Race aprovada a 29 de setembro, até 2040; partidas da regata no Porto em 2031, 2035 e 2039. Edifício Transparente: demolição parcial anunciada em abril, prazos a divulgar pelo Município até ao fim de 2026; petição em peticaopublica.com.