Na terça-feira, 27 de outubro, os portões da Escola Artística Soares dos Reis, no Bonfim, não abriram. Desde as oito da manhã, cerca de 300 alunos bloquearam a entrada e montaram tendas no pequeno jardim em frente. A escola não funcionou nesse dia.
Na sexta-feira, 30, saiu o ranking das escolas. A Soares dos Reis é a 8.ª escola pública com melhor média nos exames nacionais, numa lista de 479 públicas. A melhor pública do país é outra escola do Porto, o Conservatório de Música, em 38.º lugar da tabela geral, com 14,01 valores em 121 provas.
O que custa estudar artes
Os alunos pedem materiais gratuitos, melhores instalações, menos carga horária e o fim dos exames nacionais. O preço dos materiais foi a queixa mais repetida. Isabela Charrua, aluna da escola, explicou aos jornalistas que as despesas variam com os projetos e as disciplinas: cerca de 30 euros por mês nos trabalhos de tecnologias e à volta de 15 euros mensais noutros materiais. Há colegas sem capacidade para pagar, disse, e o apoio existente pode não chegar. Os estudantes emprestam e partilham materiais entre si.
Vera Sousa, também aluna, contou que vem todos os dias de Penafiel, de comboio, metro e autocarro, para estar às oito na escola, porque não tem 400 euros para um quarto no Porto. "A habitação também é um problema nosso", disse, associando o protesto à acampada da Praça D. João I.
O diretor da escola, Jorge Delmar, disse aos jornalistas, nessa manhã, estar solidário com os alunos e considerar as reivindicações legítimas. Defendeu o diálogo, afastou a hipótese de chamar a polícia para abrir a escola e admitiu que as condições de trabalho precisam de melhorar, sobretudo nos materiais do ensino artístico especializado.
Uma escola única
A Soares dos Reis é uma das duas únicas escolas públicas de ensino artístico especializado em artes visuais do país. A outra é a António Arroio, em Lisboa, que ficou em 9.º entre as públicas no mesmo ranking. As queixas não são novas: em março de 2025, mais de uma centena de alunos já se tinha manifestado por melhores condições, denunciando infiltrações nas salas, oficinas sem espaço e horários excessivos.
O protesto de 27 de outubro foi o mais visível de uma semana de ações convocada a nível nacional pelo movimento Voz aos Estudantes, entre 26 e 30 de outubro, com concentrações à porta de escolas e um abaixo-assinado a circular por mais de cem estabelecimentos. Até à hora em que escrevemos, não encontrámos reação pública do Ministério da Educação ao protesto do Porto.
O ranking, lido com cuidado
O ranking que saiu na sexta-feira ordena as escolas pela média dos exames nacionais de 2025. No topo estão colégios privados, e três do Porto: o Grande Colégio Universal em 1.º, o Colégio de Nossa Senhora do Rosário em 2.º e o Colégio Efanor, em Matosinhos, em 3.º. É preciso descer ao 38.º lugar para encontrar a primeira pública.
Há outra leitura. O chamado ranking da superação, que compara os resultados com o contexto socioeconómico dos alunos, a escolaridade dos pais e os apoios da Ação Social Escolar, coloca 38 escolas públicas entre as 50 melhores do país.