Criado no bairro Guarituba, no Brasil, encontrou no breaking uma identidade e um lugar de pertença. Hoje, aos 34 anos, leva consigo o legado da mãe, uma câmara completa de histórias e o sonho de construir um “ninho”.
Quando lhe perguntam quem é, Deivison Souza de Melo não escolhe uma profissão. “Sou muitas camadas”, responde. “Antes do b-boy, do fotógrafo, do produtor audiovisual, do host e do jurado, há um filho, um irmão e uma criança que cresceu entre Curitiba e Piraquara, no estado brasileiro do Paraná”.

Deivison nasceu em Curitiba, mas foi no bairro Guarituba que viveu grande parte da infância e encontrou aquilo a que chama a sua “essência total”. Filho mais novo, cresceu a comparar-se com os irmãos, que eram bons no futebol, no papagaio de papel e nos jogos de rua. Mais frágil e frequentemente doente, sentia que ainda não tinha encontrado o seu lugar.
No entanto, o cenário começou a desenhar-se por volta dos 9 ou 10 anos. Ouvia funk e rap, via videoclipes na MTV e conhecia outras culturas através da televisão. Uma revista “Rap Brasil", oferecida pela mãe, mudou-lhe o rumo. Foi uma fotografia. Viu crianças b-boys, vestidas com estilo e pousadas em movimentos que lhe pareciam, ao mesmo tempo, estranhos e mas imponentes.
“Eu queria ser diferente de toda a gente.
Ali encontrei-me, porque havia uma forma de vestir, liberdade criativa e a possibilidade de criar os meus próprios movimentos”, recorda.
“O breaking deu-me uma identidade como pessoa. Deu-me um lugar.”
Sem uma escola de dança ou recursos para comprar equipamento, treinava à porta de casa sobre um tapete ou pedaços de cartão. As roupas largas vinham dos irmãos mais velhos e a mãe chegava a coser as três riscas da Adidas no uniforme da escola para que o filho se sentisse um verdadeiro b-boy.
O que começou como fascínio tornou-se uma forma de enfrentar a baixa autoestima, o bullying e, mais tarde, perdas profundas.
“Às vezes, passamos por coisas difíceis e achamos que somos essas coisas. Mas descobri o breaking, que diz: põe tudo isso num movimento e cria outra coisa. Tu não és a tua dor. És aquilo que fizeste com tudo isso.”

A mãe disse-lhe que o telhado eram as estrelas. Ele olhou e acreditou.
Em todas as partes da história de Deivison aparece a mãe, Marlete. Mulher negra, alta, de cabelo black power, vestidos compridos e postura firme, é descrita pelo filho não apenas como uma inspiração, mas como uma admiração.
Deivison recorda uma noite dos anos 1990, quando a casa que a família construía ainda não tinha cobertura. Ao perguntar por que razão não havia telhado, ouviu da mãe que o telhado eram as estrelas. Porque assim, não existiam limites e ele poderia olhar para aquilo que era mais belo. Noutra ocasião, durante um temporal, Marlete transformou o medo dos três filhos num desafio para ver quem conseguia segurar a lona com mais força. Transformando o medo em diversão.
“Uma situação que podia ter sido terrível e traumática, ela transformou numa cena de filme. Fez-nos sentir incríveis”, conta. “Foi a mulher que me criou, que me formou como homem e me deu o meu caráter.”
Marlete morreu quando Deivison ainda era adolescente. Cerca de um ano depois, perdeu também um dos irmãos para o crime. A dança, que até então representava sobretudo brilho e descoberta, passou a ser seu refúgio.
Anos mais tarde, já adulto, Deivison reencontrou uma tia e soube que a mãe participava, na juventude, em concursos de dança de salão e dançava ritmos tradicionais do Mato Grosso. A descoberta deu novo sentido ao incentivo que sempre recebera. “Ela colocou em mim uma semente da adolescência
dela que nunca me contou em vida. Fê-lo de uma forma muito subtil.
É a minha referência máxima.”
Cerca de um ano depois da morte da mãe, Deivison perdeu também o irmão mais velho, marcado pela violência que atravessava o bairro. A perda alterou não só a estrutura da família, mas também a forma como passou a ser visto por quem o rodeava. Ainda adolescente, sentia que os seus passos eram observados e que existia a expectativa de que procurasse vingança.
Numa época em que viu vários amigos serem atingidos pela violência, o hip-hop apresentou-lhe outras realidades e possibilidades. As músicas falavam-lhe de lugares como Nova Iorque e Brooklyn, de comboios cobertos por grafites e de uma cultura que existia para além dos limites do bairro. Esse imaginário ajudou-o a não ficar preso à revolta.
“Antes, a dança era apenas o brilho e o amor. Depois, tornou-se uma válvula de escape para todos os problemas”, recorda.
Isso não significa, porém, que nunca tenha pensado em desistir. Deivison admite que essa vontade surgiu em diferentes momentos do percurso, entre as perdas pessoais, a instabilidade e a dificuldade de construir uma vida através da dança.
Também pesava o sentimento de estar constantemente a entregar algo aos outros sem saber quando seria a sua vez de ser cuidado ou reconhecido.“Quando danço, apresento um evento, filmo ou fotografo, quero alegrar as pessoas e fazer com que se sintam bonitas. Mas, às vezes, penso: “Quando é que chega a minha vez de ser visto?”
Hoje, percebe que as experiências que antes despertavam revolta e vontade de desistir podem transformar-se em histórias capazes de ajudar outras pessoas. Por isso, quando lhe perguntam se alguma vez pensou em abandonar o caminho, responde sem esconder a dificuldade: “Desistir, a toda a hora. Parar, nunca.”
Se, durante aqueles anos, o hip-hop lhe ofereceu um caminho para atravessar a própria dor, houve um momento em que Deivison percebeu que essa força também podia proteger os outros.

O poder do hip-hop, um escudo contra o medo.
Até então, Deivison não tinha encontrado espaço para contar esta história e não se recorda de alguma vez a ter partilhado. Foi esse episódio que o ajudou a perceber que o breaking pode ir muito além da dança e assumir uma dimensão profundamente humana na vida dos jovens. Aconteceu por volta de 2007, quando tinha cerca de 14 anos, durante uma iniciativa do Dia da Mãe realizada na comunidade do Parolin, em Curitiba. Deivison e outros jovens tinham sido convidados a dançar num evento preparado para as crianças do bairro.
A celebração foi interrompida por um tiroteio na rua, no qual uma criança perdeu a vida. Perante o perigo, eles fecharam o portão e levaram todas as crianças para o interior do espaço cultural. Ainda adolescente e também assustado, Deivison procurou responder da única forma que conhecia: ligou a música.
“Corri para ligar o som e entreter as crianças. Comecei a dizer: “Vamos dançar, vamos saltar, quem consegue fazer isto?”, recorda. Aos poucos, conseguiu desviar-lhes a atenção do que acontecia no exterior. Algumas aproximaram-se e abraçaram-no, enquanto ele continuava a incentivá-las a dançar.
“Eu também estava com medo, mas não me desesperei com elas. Naquele momento, senti que tinha a vida daquelas crianças nas mãos, e eu era apenas um jovem.”
Foi nesse dia que Deivison percebeu que o hip-hop podia representar muito mais do que música, dança ou expressão artística. Podia tornar-se uma forma de cuidado e, mesmo que apenas por alguns instantes, oferecer segurança no meio do medo.
“Ali vi realmente o poder do hip-hop. É muito poderoso”, afirma.
A lembrança continua a acompanhá-lo: “Acho que é a primeira vez que falo sobre esta situação. Ainda mexe muito comigo.”
O episódio ajuda também a compreender o valor que procura transmitir às pessoas com quem trabalha: a necessidade de humanizar as relações. Para Deivison, nenhum currículo ou reconhecimento profissional torna alguém superior aos outros. O mais importante é permanecer atento às necessidades de quem está por perto.
“É perceber se a pessoa tem fome, se quer beber água ou se precisa de receber um pagamento mais rapidamente. É sobre humanizar a comunicação”, explica.
Inspirado por uma visão comunitária segundo a qual todos participam no cuidado de todos, resume: “Toda a gente é pai e mãe de toda a gente e todos cuidam de todos.”
Foi naquele Dia das Mães, algo que aconteceu muito antes dos trabalhos no audiovisual, dos grandes eventos e do reconhecimento profissional, que Deivison descobriu no hip-hop uma maneira de cuidar. É esse princípio que, ainda hoje, procura transmitir para a dança, para a produção cultural e para a forma como se relaciona com os outros.
As referências que moldaram o seu caminho
Para além de Dona Marlete, Deivison construiu o seu universo artístico a partir de referências que lhe chegavam pela televisão, pela música e pelas páginas das revistas. Ainda criança, o funk brasileiro e o rap já faziam parte do seu quotidiano, enquanto a MTV lhe apresentava outros sons e culturas através dos videoclipes de artistas e grupos como Sabotage, Charlie Brown Jr., Planet Hemp, Beastie Boys, Run-D.M.C. e Rage Against the Machine. Foi através dessas imagens que conheceu nomes como Rooney Yo-Yo e Nelson Triunfo e começou a reconhecer-se no universo do breaking. “Foi totalmente mágico. A partir daquela revista, a minha vida artística começou a acontecer”, recorda.
Mais tarde, já ligado profissionalmente à imagem, encontrou nas palavras de Sebastião Salgado uma forma de explicar o próprio olhar: não é apenas a câmara que fotografa, mas toda a cultura de quem está por detrás dela. Deivison transporta essa ideia para o seu trabalho.
“O teu olho vai captar aquilo em que tens fundamento”, afirma, referindo-se à forma como o breaking lhe permite antecipar o movimento, reconhecer o instante certo e compreender a história de quem dança.O percurso de Deivison não se limitou ao breaking. Mais tarde, no Centro Cultural Humaitá, em Curitiba, conheceu a capoeira angola e aprofundou o contacto com a história dos povos bantos e com as raízes negras do rock, do house, do jazz e dos blues — expressões que, até então, associava a espaços de elite.
“Foi aí que a minha cabeça se abriu, primeiro para a música e depois para a dimensão cultural e histórica da cultura negra. A partir disso, comecei a transitar com maior liberdade por outros estilos de dança”, explica. Embora o breaking continue a ser a sua principal linguagem, incorpora também influências do house e do hip-hop dance. Essa descoberta permitiu-lhe ainda compreender melhor as estruturas que, muitas vezes, dificultam o acesso à dança por parte de quem dispõe de menos recursos.
Quando o bairro se tornou mais perigoso, Deivison pediu ao Centro Cultural Humaitá um espaço onde pudesse treinar com outros jovens. Passou a levá-los ao centro de Curitiba aos domingos. Foi também aí que começou a aprender a organizar batalhas e eventos, observando outros produtores e assistindo a gravações em VHS e DVD.
Devison explica que o breaking lhe deu uma identidade capaz de contrariar os olhares racistas e o sentimento de inferioridade. A ideia mais forte é que as dificuldades vividas não precisam de definir uma pessoa, mas podem ser transformadas em movimento e numa nova história.
Com o tempo, algumas referências deixaram de existir apenas à distância. Em 2025, no Porto, Katsu, do Japão ( alguém que Deivison sonhava conhecer ), e Tyson, que aponta como uma referência da cena brasileira, estiveram entre os jurados do Top Rock Lovers, evento produzido por Deivison dentro do The World Battle.
“Era um sonho conhecer o Katsu e consegui tê-lo como jurado num evento. O Tyson também é uma referência no Brasil”, conta. Nesse encontro, o rapaz que descobriu o breaking através de um ecrã e de uma revista viu-se a criar um espaço partilhado por nomes que admirava e por bailarinos de diferentes partes do mundo.
Fotografar o “som do grito”
A dança chegou através de imagens, mas a fotografia profissional só entrou no seu caminho entre 2015 e 2016. A falta de registos da própria infância e dos primeiros anos no breaking teve um peso decisivo. Deivison diz ter apenas uma fotografia sua em criança e uma da mãe. Também não guarda imagens de muitos momentos importantes da carreira, incluindo competições, viagens e workshops.
Comprou a primeira câmara para começar a construir os seus próprios registos. Durante uma viagem a Brasília, onde dava um workshop de dança, pediram-lhe que fotografasse o evento. Ainda estava a aprender a usar o equipamento, mas recebeu orientação de outro fotógrafo e percebeu que o conhecimento do breaking lhe permitia antecipar movimentos, ângulos e instantes.
“Não consigo captar a essência de alguma coisa sem ter fundamento nela. Não conseguiria traduzir a luz, o enquadramento e o momento certos’, explica. Ser b-boy tornou-se, assim, uma das maiores diferenças do seu trabalho audiovisual.
No início da carreira fotográfica, escolheu retratar sobretudo pessoas negras e levar esses corpos a espaços públicos onde, na sua leitura, nem sempre eram vistos como pertencentes. Fotografou bailarinos, artistas e pessoas negras a ocuparem diferentes lugares de Curitiba; algumas dessas imagens chegaram a integrar uma exposição na Biblioteca Pública do Paraná e, segundo Deivison, no património visual da cidade.
Para ele, a fotografia não serve apenas para ver. Serve para ouvir.
“A fotografia tem um poder absurdo. Se tivesse de escolher uma palavra, seria “grito”: uma coisa que sai do peito das pessoas”, diz.
“Quando eu só dançava, fazia muito barulho e pensava em mim. A fotografia fez-me ver o outro.”
“Ela inspira-me a ser mais humano. Ensina-me a olhar para a vida real, para a vida na sua subtileza.”
Fora dos eventos, Deivison vive hoje uma fase mais reservada. Interessa-se por teologia, gosta de samba, de beber uma cerveja e de percorrer o Porto a pé, devagar e sem auriculares. Está a estudar música e aprender a tocar. A Giulia canta e vem de uma familia ligada a música. Procura conhecer não apenas a cidade turística, mas também o Porto das tascas, das bifanas, das tripas e das histórias contadas por quem vive cá.
Giulia, a companheira, é apontada como uma das suas maiores influências atuais. Além de professora de Yoga, ela gosta de receber temporariamente em casa cães e gatos cujos donos vão viajar ou têm outros compromissos. Além de tornar a casa mais alegre, a presença dos animais tem ajudado Deivison a reparar a delicadeza do quotidiano. Nas crianças, nos gestos que não precisam de explicação e numa vida mais ligada ao presente.
“Ela inspira-me a ser mais humano. Ensina-me a olhar para a vida real, para a vida na sua subtileza.”
Depois de anos a perseguir reconhecimento, projetos e experiências artísticas, o maior sonho já não é um prémio ou um palco. É uma casa própria. Deivison chama-lhe “o ninho”: um lugar ao qual possa regressar e onde possa construir uma família.
“Passei a vida a desenvolver-me, a descobrir quem sou e a tentar pertencer a este mundo, como quem diz: Estou aqui, estou vivo, não me ignorem. Agora quero fazer o ninho e ter um lugar para voltar.”
Quando pensa no legado que gostaria de deixar na dança, no audiovisual e no Porto, volta àquilo que considera essencial: a ligação entre pessoas. Ainda acredita que a sua maior contribuição está por acontecer, talvez através de eventos, encontros ou de um livro que reúna estas histórias.