O Porto em agosto é uma cidade a duas velocidades. Enquanto as esplanadas do centro faturam como nunca, os pequenos cafés de bairro lutam para não fechar. O problema é que, quando fecham, não morre apenas um negócio. Morre a última rede de segurança social de quem ficou para trás.

Os cafés de bairro do Porto são uma rede de segurança social invisível. Fazem o que nenhum programa municipal consegue: dão pertença. Nos cafés de Campanhã, de Paranhos ou do Bonfim, não se servem brunchs para turistas. Serve-se reconhecimento. O dono sabe quem bebe a meia de leite. Sabe quem compra o jornal. E, acima de tudo, sabe quem não apareceu de manhã. Um simples "como está?" trocado ao balcão é, para milhares de idosos que vivem sós, o único contacto humano de um dia inteiro.

Mas esta rede está a colapsar. Os cafés de bairro estão a fechar. As rendas sobem de forma implacável, os donos envelhecem, a burocracia sufoca quem trabalha e os filhos não querem herdar o negócio. E quando a grade de ferro desce pela última vez, não é apenas um negócio que morre, é uma comunidade inteira que perde o seu ponto de encontro. A sala de estar do bairro desaparece.

O Porto não pode assistir a este colapso encolhendo os ombros ou fingindo que já faz o suficiente. Sim, a Câmara tem o programa "Porto de Tradição", que já reconheceu dezenas de lojas históricas. Lisboa tem o "Lojas com História". São programas com mérito, que protegem montras centenárias, tetos trabalhados e património visível. Mas deixam de fora a humilde tasca de esquina que não tem azulejos do século XIX, mas tem a chave da casa do vizinho do lado e combate a solidão todos os dias. Protegemos a história para os turistas verem, mas abandonamos a coesão social que mantém a cidade viva.

“É fácil proteger azulejos do século XIX para saírem bem nas fotografias; difícil é proteger o balcão de fórmica onde se trava a epidemia da solidão urbana todos os dias.”

A solução exige coragem política e não apenas placas na porta. Em Londres, as comunidades podem classificar os seus pubs locais como "Ativos de Valor Comunitário", impedindo que sejam vendidos para especulação imobiliária sem que os moradores tenham uma palavra a dizer. Em Paris, há fundos para proteger os bistrots de bairro.

O Porto deve dar o salto e criar o estatuto de "Espaço de Coesão Social". Um selo atribuído não pela beleza da montra, mas pelo serviço à comunidade. Cafés e pequenas mercearias que comprovem servir populações envelhecidas e bairros periféricos passariam a ter isenção total de taxas municipais, apoio direto na renda (financiado, por exemplo, por uma fração da Taxa Turística) e uma via verde para licenciamentos.

Não se trata de subsidiar negócios falidos. Trata-se de pagar por um serviço público que estes espaços prestam de graça. O Estado gasta milhões a tentar combater a solidão urbana através de instituições que raramente chegam ao terreno. Os cafés de bairro fazem-no todos os dias, com um pires e uma colher de café.

O Porto gosta de se afirmar como uma cidade de afetos. Mas os afetos precisam de telhado, de balcão e de quem os sirva.

Quando o último café de bairro fechar, de que servirá termos a cidade mais bonita da Europa se ninguém der pela nossa falta de manhã?

Sérgio Santos - Diretor | Momento do Porto
Share this article
The link has been copied!