O Porto sabe receber animais nos parques, nas esplanadas e nos passeios de fim de tarde. Mas uma cidade só é verdadeiramente amiga dos animais quando a responsabilidade não fica em pausa durante quinze dias de férias.
Há dias, falei com uma família que me deixou uma lição simples. Três gerações da mesma família organizaram-se para garantir que os animais que adotaram nunca ficassem sem cuidado, rotina ou dignidade. Revezam-se. Ajustam horários. Renunciam a algum conforto quando é preciso. Não falam de sacrifício, porque para elas os animais são parte da família. E nunca lhes passaria pela cabeça deixá-los para trás.
Esta história merece ser contada porque desmonta a desculpa mais fácil: a de que não há alternativa. Há alternativas quando há compromisso. Há família, amigos, cuidadores, hotéis preparados para receber animais e, acima de tudo, planeamento antes de uma adoção. Cuidar não começa quando nos apetece. Começa no dia em que escolhemos assumir uma vida como nossa.
O Porto tem razões para se orgulhar do caminho feito. O Centro de Recolha Oficial de Animais substituiu o velho canil e alargou a capacidade de acolhimento de 94 para 220 boxes. Tem equipa veterinária, tratamento, esterilização, zonas de exercício e de sociabilização. Quem adota leva consigo um animal identificado, vacinado, desparasitado e esterilizado. Há visitas ao sábado. Há pessoas que fazem deste trabalho uma missão diária.
Mas existe uma frase que devia fazer-nos parar: o espaço vive perto da lotação porque há mais animais abandonados do que animais adotados.
No dia 15 de agosto, assinalou-se o Dia Internacional do Animal Abandonado. Não devia ser necessário um dia para recordar o básico. Um animal não é um brinquedo para os dias em que queremos companhia, nem um presente que se devolve quando chega o verão. É uma responsabilidade. E responsabilidade não cabe numa fotografia de Instagram, numa taça de água à porta do café ou num passeio de domingo.
O Porto é pet-friendly, isto é, amigo dos animais, quando lhes abre os parques e as esplanadas. Isso é bom. Mas não chega. Ser amigo dos animais não é deixá-los entrar; é não os deixar ficar para trás. A cidade só pode usar esse rótulo com verdade quando cada família perceber que férias, mudanças de casa, dificuldades financeiras e rotinas apertadas fazem parte da vida que se deve ponderar antes de adotar.
Não vale apenas apontar o dedo a quem abandona. Vale responsabilizar-nos enquanto comunidade. Quem vê um animal em risco deve saber como agir, sem medo e sem burocracias que o façam desistir. Já existem canais nacionais que permitem comunicar uma situação por email, incluindo a possibilidade de pedir anonimato. Falta torná-los conhecidos, simples e próximos de quem passa por uma situação destas. Por que não criar no Porto uma campanha permanente de “Denúncia sem Medo”, com instruções claras nos parques, nas clínicas veterinárias, nas escolas e nas redes sociais? Denunciar abandono não é meter-se na vida dos outros. É impedir que uma vida seja abandonada à sua sorte.
E há mais a fazer. Um Pacto de Férias Responsáveis podia reunir, num único sítio, alojamentos, cuidadores e soluções acessíveis para animais; criar uma rede de acolhimento temporário, reservada a verdadeiras emergências,doença, internamento, violência ou perda de habitação; e transformar cada adoção num compromisso informado, sem romantismo e sem impulso. A pergunta devia ser obrigatória antes de qualquer adoção: quem cuida deste animal quando a nossa vida deixa de ser fácil?
Não se trata de desculpar quem abandona. Trata-se de retirar todas as desculpas a quem pensa fazê-lo.
No Porto que se diz amigo dos animais, será que uma mala de férias pode alguma vez pesar mais do que a lealdade de quem não pode falar?
Sérgio Santos - Diretor | Momento do Porto