Falamos muito do calor no Metro ou na rua, mas esquecemos os milhares de portuenses que vivem nas tradicionais "ilhas". Com o calor extremo de julho, estas casas exíguas transformam-se em fornos para uma população envelhecida. O Porto precisa de soluções para hoje, não apenas para a próxima década.
Se caminharmos pelas ruas reabilitadas do Bonfim, de Campanhã ou de Lordelo, a fachada da cidade parece imaculada. Mas se atravessarmos os corredores estreitos que se escondem nas traseiras dos prédios bonitos, encontramos um Porto diferente. Os números oficiais são claros e impiedosos: existem hoje 957 ilhas na cidade, onde habitam cerca de 10.000 portuenses. A esmagadora maioria não tem alternativa de alojamento. E agora, que se avizinha mais um início de semana de calor extremo, a urgência de insistirmos neste tema impõe-se: com as noites a recusarem arrefecer, estas casas, muitas com telhados de zinco ou fibrocimento e fraca ventilação, transformam-se em autênticos fornos.
O heroísmo destas comunidades é inegável. A resiliência de quem vive nas ilhas e o espírito de vizinhança, as portas abertas para criar correntes de ar, a partilha de ventoinhas, a atenção diária aos vizinhos mais velhos são a verdadeira rede de segurança do Porto. Mas a boa vontade não baixa a temperatura do zinco nem impede que 80% das vítimas mortais das ondas de calor em Portugal sejam idosos.
É justo reconhecer o esforço em curso. A Estratégia Local de Habitação e o Programa 1º Direito têm financiamento aprovado para a reabilitação de centenas de casas em ilhas. O município já adquiriu núcleos na Lomba e em São Victor, e as obras avançam. O problema não é a falta de projetos a longo prazo; o problema é a urgência do agora. Uma reabilitação total demora anos, desde a candidatura até à conclusão da obra. Mas quem vive debaixo de zinco, a sufocar num quarto sem janela, não pode esperar uma década para deixar de suar dentro da sua própria casa.
A emergência climática exige respostas imediatas, não apenas processos de reabilitação profunda. A cidade tem aqui uma oportunidade de ouro para inovar. Em vez de esperar pelas grandes empreitadas, urge lançar um programa municipal de "Micro-Reabilitação de Emergência", focado exclusivamente e de forma cirúrgica no isolamento térmico dos telhados das ilhas privadas. Sem a burocracia das reabilitações integrais, este programa permitiria intervir rapidamente no ponto crítico que transforma as casas em estufas.
Em paralelo, o Porto tem de olhar para o que já se faz em Portugal e na Europa. Lisboa já mapeou e ativou uma rede de dezenas de "Refúgios Climáticos", e cidades como Barcelona lideram com mais de 400 destes espaços abertos ao público. São bibliotecas, pavilhões e centros cívicos com ar condicionado, onde a população mais vulnerável se pode abrigar durante as horas críticas. No Porto, no pico da onda de calor no início de julho, assumiu-se publicamente a inexistência de um plano de emergência ativado ou de estruturas específicas para acolher estas pessoas, limitando-se a ação à monitorização. Monitorizar o calor não arrefece quem o sofre.
É fácil celebrar os títulos de "melhor cidade da Europa" quando a pobreza e a vulnerabilidade estão escondidas nas traseiras. Mas a verdadeira medida de uma cidade não se vê nos postais turísticos; vê-se na forma como protege os seus residentes mais frágeis nos dias mais difíceis.
O Porto das ilhas não precisa apenas de paciência para esperar pelas grandes obras. Precisa de soluções simples, rápidas e humanas para sobreviver a este verão.
Sérgio Santos - Diretor | Momento do Porto