O Porto enche-se de festivais de massas e eventos imersivos para turistas. Mas nos bairros, longe dos holofotes, as pequenas coletividades lutam diariamente pela sobrevivência. Manter estas portas abertas exige mais do que resiliência; exige uma nova visão para a cidade.
Se olharmos apenas para a agenda cultural oficial, o Porto é uma cidade vibrante. Não faltam mega-eventos, exposições internacionais, festivais de música e palcos montados nas praças centrais. É uma cidade que atrai multidões e que justifica o título de destino de excelência. Mas quando as luzes dos grandes palcos se apagam, o que sobra nos nossos bairros?
Longe da Baixa e dos roteiros turísticos, o "Porto Real" trava uma luta silenciosa. Falamos das pequenas associações recreativas, dos clubes desportivos amadores e das coletividades de bairro em zonas como Campanhã, Massarelos ou Miragaia. Estas instituições não enchem estádios nem atraem patrocínios milionários, mas são elas que, há décadas, tiram os miúdos da rua, dão companhia aos idosos e mantêm viva a identidade da cidade.
Hoje, a sobrevivência destas casas está por um fio. Os dirigentes envelhecem, a renovação de voluntários é escassa e a pressão diária para pagar a fatura da luz ou consertar um telhado consome a energia de quem já dá o seu tempo de graça.
É justo reconhecer o que existe. O Porto não ignora o associativismo. O Fundo Municipal de Apoio ao Associativismo Portuense é uma realidade meritória que distribui verbas anualmente, e a Associação das Coletividades do Concelho do Porto (ACCPorto) faz um trabalho notável de união. O ecossistema está montado e o dinheiro existe.
Onde reside, então, o verdadeiro obstáculo? No modelo de acesso e na carga burocrática que recai sobre os ombros dos voluntários. O rigor com os dinheiros públicos é inegociável, mas a complexidade das candidaturas esgota quem gere estas associações nos tempos livres, roubando horas preciosas às suas próprias famílias e aos seus afazeres profissionais. Discute-se frequentemente o montante dos apoios, mas esquece-se o desgaste profundo de quem abdica da sua vida pessoal para os conseguir.
O caminho para melhorar é simples, transformador e já foi testado com sucesso noutras paragens. Primeiro: a criação de uma "Via Verde do Associativismo", um balcão municipal de apoio técnico exclusivo que assuma o ónus da papelada — à imagem do que municípios como Ílhavo ou Loures já implementaram com eficácia —, ajudando os dirigentes a focar-se no que interessa: a comunidade. Segundo: garantir a sustentabilidade básica com os olhos postos na Europa. Em cidades como Barcelona ou Amesterdão, a Taxa Turística já financia diretamente a vida dos bairros. Se a autenticidade do Porto gera milhões com essa mesma taxa, é de elementar justiça que uma percentagem fixa seja canalizada para um fundo de manutenção destas associações. Quem lucra com a alma da cidade tem o dever de financiar quem a mantém viva.
Apoiar os grandes eventos é importante para a economia, mas proteger as coletividades é vital para a nossa sobrevivência enquanto comunidade.
Uma cidade com muitos festivais, mas sem coletividades de bairro, não é uma cidade; é apenas um palco. E num palco não mora ninguém.
A pergunta que se impõe ao Porto é simples: quando a última associação de bairro fechar as portas, exausta, quem vai tomar conta dos nossos miúdos e dos nossos velhos? Os turistas?
Sérgio Santos - Diretor | Momento do Porto