O Porto despediu-se esta semana de Francisco Carvalho Guerra, o homem que fundou a Universidade Católica na cidade e quebrou o monopólio académico da capital. Não procurava os holofotes nem a bajulação. Procurava apenas construir. E, ao fazê-lo, moldou o carácter e a ética de gerações que hoje lideram o país.

Há homens que fazem muito barulho e deixam pouca obra. E há homens como Francisco Carvalho Guerra. O professor catedrático, que nos deixou esta semana aos 93 anos, pertencia a essa estirpe rara de cidadãos (embora nascido em Braga, o Porto foi a sua obra) que preferem a solidez do granito à espuma dos dias.

Para a história oficial, Francisco Carvalho Guerra será lembrado como o primeiro bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, o vice-reitor da Universidade do Porto e o fundador visionário do Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa (UCP). Mas para as milhares de pessoas que se cruzaram com ele nos corredores da Foz ao longo de 15 anos de reitoria, ele será sempre, e apenas, o "Pai Guerra".

Uma alcunha destas não se decreta por despacho reitoral. Conquista-se. E conquista-se com uma proximidade genuína, com um rigor que nunca perdia a empatia, e com a capacidade invulgar de ver o potencial em cada aluno antes mesmo de ele se revelar.

O legado do Professor Carvalho Guerra não se mede apenas nos edifícios que ergueu ou nos cursos que criou. Mede-se na audácia de ter desafiado a geografia do saber em Portugal. Quando decidiu trazer para o Norte cursos como o de Direito — até então zelosamente monopolizados por Lisboa e Coimbra — ou quando apostou em áreas totalmente inovadoras como a Biotecnologia e a Escola das Artes, ele não estava apenas a criar uma universidade. Estava a afirmar a autonomia intelectual e estratégica do Porto.

Foi um construtor silencioso que percebeu, muito antes dos discursos políticos da moda, que a verdadeira descentralização faz-se retendo o talento. Formando os melhores e dando-lhes motivos para ficarem.

Hoje, quando olhamos para as lideranças empresariais, jurídicas e culturais da nossa região, vemos a marca invisível do "Pai Guerra". Uma marca de exigência ética, de trabalho árduo e de recusa do facilitismo. Ele ensinou-nos que a excelência não precisa de ser arrogante e que a autoridade se exerce pelo exemplo, não pelo grito.

O Porto deve-lhe muito. Deve-lhe a audácia de pensar grande quando o país o mandava pensar pequeno. Deve-lhe uma das instituições de ensino mais prestigiadas do país. Mas, acima de tudo, deve-lhe o exemplo de uma vida inteira dedicada à elevação dos outros.

Muitos dos que hoje apenas falam e seguem as modas do momento deviam olhar para esta vida e aprender a agir. Em vez de fomentarem a fuga dos nossos grandes talentos e de continuarem submisos a um pensamento centralista que sempre olhou para o Norte com condescendência, deveriam aprender com o legado de quem fixou conhecimento, colocou o Porto no mapa, fez as suas gentes serem respeitadas e será eternamente lembrado por todos.

Sérgio Santos - Diretor | Momento do Porto

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