Trocámos a rua pela cave e o sol pelas claraboias. O portuense convenceu-se de que o auge do descanso é suar numa rampa de garagem, onde a única vitória é uma luz verde. Lá dentro, vestimos o fato de treino para o shopping, pagamos para comer entre tabuleiros sujos e entregamos o nosso ordenado a multinacionais sem rosto. É tempo de acordar da anestesia.
O fim de semana no Porto tem um novo desporto dos portuenses. Começa invariavelmente numa fila de trânsito que desemboca numa rampa subterrânea. O objetivo? A corrida épica para encontrar um lugar de estacionamento no shopping. Quando a luz verde finalmente acende e o carro fica estacionado, suspiramos de alívio e ficamos genuinamente felizes. Celebramos a vitória do nada. E a partir daí, o fim de semana que devia servir para descansar e regenerar
forças, transforma-se numa maratona de consumo e ilusão.
É inegável que os grandes centros comerciais oferecem conforto, segurança e tudo no mesmo sítio. Compreende-se o apelo da conveniência. Mas a que preço? Passeamos debaixo de claraboias de vidro, com a sensação artificial de estarmos à luz natural num belo dia de sol, enquanto lá fora a cidade real nos espera. Pior ainda: sentamo-nos na praça de alimentação, rodeados de centenas de pessoas, e chamamos a isso convívio. Na verdade, almoçamos ou jantamos agarrados ao telemóvel, numa mesa onde se amontoam pratos sujos e tabuleiros alheios, aceitando como perfeitamente normal comer junto aos restos dos outros.
Neste desporto bizarro, a justificação é sempre o consumo. Compramos uma peça de roupa a custar dois euros, de qualidade duvidosa, apenas para podermos passear um saco pelos corredores e enganarmo-nos sobre a verdadeira razão de ali estarmos. Mas a fatura mais pesada desta ilusão não vem no talão de compra. Vem na cidade que deixamos morrer. Enquanto enchemos os bolsos de multinacionais sem rosto, sem qualquer perspetiva de investimento na comunidade ou retorno para o Porto que contribui para o seu sustento, matamos lentamente os pequenos negócios. O comércio local, que sustenta as famílias e dá identidade aos nossos bairros, fecha portas porque o nosso rendimento foi todo sugado pelas escadas rolantes.
Os portuenses têm de acordar. Com tantas actividades gratuitas disponíveis na cidade, será que a melhor opção são os centros comerciais? A publicidade massiva afasta-nos do verdadeiro objetivo do fim de semana. Se o que procuramos é convívio e ar livre, não seria infinitamente preferível fazer um piquenique na relva, a respirar ar puro, do que comer ao lado de restos alheios sob luzes fluorescentes?
O Porto tem parques, tem rio, tem mar, tem comércio de rua e tascas com alma. O fim de semana ideal não precisa de ar condicionado centralizado nem de vitórias fáceis em parques de estacionamento. Só precisa que tenhamos a coragem de voltar a ser donos do nosso tempo.
Sérgio Santos
Diretor | Momento do Porto