Balbina Mendes nasceu numa aldeia de Miranda do Douro, cresceu a falar mirandês e fez os primeiros deveres à luz da candeia. Foi no Porto que encontrou a formação artística que não pôde ter quando era jovem. Hoje, a pintora, professora aposentada, mãe e avó leva para as telas as máscaras, os rituais e as histórias da terra onde cresceu.
Balbina Mendes é pintora, professora aposentada, mãe e avó. Nascida em Malhadas, no concelho de Miranda do Douro, construiu no Porto a parte decisiva do seu percurso artístico: frequentou uma escola de pintura e concluiu o mestrado em Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. Uma das suas séries, Margens Douro Nascente Foz, chegou à Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Palácio de Cristal, depois de acompanhar o rio desde a nascente.
É uma história de persistência tardia, sem a retórica fácil de quem apresenta a vida como uma linha de vitórias. Balbina Mendes não começou por ser artista. Cresceu numa família de agricultores, foi professora em Aveiro e no Funchal, criou duas filhas e só mais tarde entrou em Belas-Artes. Pelo caminho, foi pintando. Primeiro por prazer. Depois porque alguém viu que aqueles trabalhos mereciam ser mostrados.
Hoje vive e tem ateliê em Vila Nova de Gaia. Mas é no Porto que identifica a possibilidade de se formar, de expor e de continuar a ver arte. E é do Porto, também, que olha para uma origem que nunca deixou de atravessar a obra: Malhadas; o mirandês ouvido em casa; os serões de inverno à lareira; e as máscaras rituais do Nordeste Transmontano que acabaram por se transformar numa reflexão sobre o que cada pessoa mostra — e esconde — de si própria.
“Não tem de ser um caminho brilhante para estarmos tranquilos com o nosso percurso.”

Uma aldeia, uma carta e a vontade de estudar
Balbina Mendes nasceu em 1955, em Malhadas. Ficou na aldeia até aos 13 anos. O pai era emigrante na Alemanha; os pais eram agricultores e a família vivia de uma agricultura de sobrevivência. A descrição que faz desse tempo tem dureza, mas não nostalgia cega. Não havia água canalizada nem saneamento. As ruas transformavam-se em lama no inverno. As crianças guardavam animais e aprendiam cedo a defender-se das intempéries.
Ao mesmo tempo, recorda uma infância de liberdade. “As memórias que eu tenho da infância são muito boas”, diz. “São as memórias de quem cresceu em plena liberdade, de quem começou a ganhar autonomia muito cedo.”
Em casa, as coisas discutiam-se à mesa. Nos serões, depois da ceia, os vizinhos juntavam-se à lareira. As mulheres fiavam lã de ovelha; as crianças faziam os deveres ou escutavam os mais velhos. As histórias, algumas fantásticas e fantasmagóricas, iam depois para a cama com elas. “A lareira, as pessoas à volta da lareira, o contar das histórias, enriqueceram o nosso imaginário definitivamente”, conta.
Os primeiros anos de escola foram feitos à luz de uma candeia ou de um lampião, a petróleo ou azeite. A eletricidade chegou à aldeia quando já frequentava a quarta classe. Mas houve uma outra luz que lhe abriu horizontes: a biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian. A carrinha levava livros às aldeias. Balbina requisitava-os e levava-os para o campo, enquanto guardava os animais.
Foi por escrever as cartas que a mãe não podia escrever ao pai, na Alemanha, que encontrou a forma de lhe pedir para continuar a estudar. O pai autorizou. Aos 13 anos, foi para a cidade de Miranda estudar. “Tinha vontade realmente de uma vida diferente”, recorda. Tornou-se boa aluna e seguiu um caminho que os pais não tinham podido fazer.
O Porto como possibilidade
Com 20 anos, saiu de Trás-os-Montes para trabalhar como professora, primeiro no distrito de Aveiro e depois no Funchal. Continuou a estudar enquanto ensinava. Havia, diz, “uma certa inquietação”: a vontade de procurar coisas diferentes, crescer e evoluir.
O Porto apareceu como a cidade onde esse desejo podia ganhar forma. Não foi uma escolha motivada por uma imagem turística ou por uma mudança de vida abstrata. Foi, acima de tudo, uma escolha de formação. Começou por frequentar uma escola particular de pintura no Porto. Ao mesmo tempo que dava aulas, pintava e expunha.
“O Porto tem uma oferta de possibilidades que uma cidade pequena não tem”, diz. “Foi essa a razão que me levou a vir para cá.”

A primeira exposição realizou-se quando vivia em Gaia e estudava pintura no Porto. A artista recorda que as obras foram vendidas e que surgiram encomendas. Não foi uma consagração instantânea; foi o incentivo que precisava para continuar. Mais tarde, já com as filhas encaminhadas na vida, entrou na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto e concluiu o mestrado em Pintura.
O percurso não lhe deu a sensação de atraso. Pelo contrário. “Fui fazendo o percurso degrau a degrau”, afirma. “Cheguei à maturidade com a satisfação de ver um caminho com que estou tranquila. Acho que fiz bem o que me propus fazer e estou bem com a vida.”
Para quem começa hoje, vê no Porto uma cidade com referências e espaços de exposição. Fala de galerias, de museus e de uma necessidade que considera essencial: ver boa arte. “É tão importante para um jovem artista ver boas exposições e boa arte como para um escritor ler bons livros.” Não é uma garantia de carreira. É uma condição para alimentar aquilo que cada pessoa tem para criar.

A língua que aprendeu antes do português
Antes de aprender português, Balbina Mendes aprendeu mirandês. Era a língua de casa, da aldeia e das histórias ouvidas nos serões de inverno. “O mirandês é a minha primeira língua materna”, diz. “Foi com mirandês que eu aprendi a falar.”
A entrada na escola alterava essa regra. A professora proibia os alunos de falar mirandês dentro da sala. As aulas, a escrita e a comunicação formal aconteciam em português. No recreio, a outra língua regressava. “As nossas brincadeiras eram em mirandês”, recorda.
Essa experiência está longe de ser um detalhe biográfico. O mirandês, reconhecido em Portugal desde 1999, é parte da forma como Balbina Mendes olha para a cultura e para a pluralidade. A pintora fala dele sem o reduzir a peça de museu ou marca regional. “É uma riqueza, uma mais-valia linguística. Não temos só a língua portuguesa; temos a língua portuguesa e a língua mirandesa. Somos mais ricos, temos mais uma língua.”
No Porto, onde o mirandês é hoje ensinado na Universidade do Porto, esta ligação ganha outra dimensão. A artista chegou à cidade em busca de instrumentos para trabalhar a pintura; trouxe consigo uma língua que, durante a infância, teve de ficar à porta da escola. A formação deu-lhe novas técnicas. A origem continuou a dar-lhe matéria.
As máscaras que guardam uma vida
As telas de Balbina Mendes têm rostos, máscaras e referências aos rituais do Nordeste Transmontano. Não são ilustrações de costumes. São, nas palavras da própria, uma pintura autobiográfica. “Há muito de mim na minha pintura: das minhas vivências, das raízes, da origem, dos rituais em que cresci e das tradições que pratiquei como criança.”
A génese está nas máscaras dos rituais de inverno que conheceu em criança. Com o tempo, essa imagem evoluiu. A máscara tornou-se psicológica e social: a camada que protege, defende e permite que uma pessoa esconda parte do que sente. Também por isso a artista aproxima esta ideia da obra de Fernando Pessoa e da sua “múltipla heteronímia”.
Há uma exigência que atravessa o processo. Para Balbina Mendes, o mais difícil nem sempre é começar uma obra ou expô-la. É saber quando parar. “Há uma parte da obra que já está resolvida, mas há uma parte que não me convence”, explica. Por vezes, deixa a pintura amadurecer, virada ao contrário, antes de voltar a procurar o caminho para a concluir.
Essa disponibilidade para esperar estende-se a quem vê o trabalho. A artista gosta quando alguém encontra numa tela uma ideia que ela própria não tinha identificado. Um bom visitante, diz, pode dar significações inesperadas à obra. “Às vezes trazem-nos agradáveis surpresas.”

O Douro como ligação
Entre as obras que recorda com maior importância está a série Margens Douro Nascente Foz. Foram 50 pinturas sobre o rio, numa itinerância que começou em Sória, perto da nascente, passou por cidades ribeirinhas e chegou à Galeria da Biblioteca Almeida Garrett, no Palácio de Cristal. A exposição acabaria por seguir para Newark, nos Estados Unidos, a convite da organização do Dia de Portugal naquela cidade.
A série partia do rio para aproximar duas margens e duas culturas. Ao longo do percurso, Balbina explorou o Douro não apenas enquanto paisagem, mas também através da tradição oral e cultural, do património arquitetónico e de elementos comuns aos dois povos ibéricos. A exposição foi descendo o rio, das proximidades da nascente até ao Porto, acompanhando também a própria geografia afetiva da artista.
Depois dessa experiência, outros espaços do Porto e de Vila Nova de Gaia passaram a fazer parte do seu percurso expositivo. Expôs no Palacete Visconde de Balsemão, na Casa-Museu Teixeira Lopes, no Convento Corpus Christi, na Cooperativa Árvore e na Biblioteca Municipal de Gaia, onde recorda especialmente o contacto com os estudantes. Quando tenta escolher uma exposição ou um lugar de que tenha gostado mais, hesita:
“É difícil dizer qual é o melhor, todos foram excelentes.”

A sua pintura, entretanto, também atravessou fronteiras. Balbina já expôs em sete países, entre a Europa, os Estados Unidos, a Austrália e a Índia. A dimensão internacional não apagou a ligação à origem. Pelo contrário, as referências de Malhadas e do Nordeste Transmontano continuam a reaparecer naquilo que pinta, mesmo quando as telas encontram outros lugares e outros públicos.
O Douro não é, para Balbina Mendes, apenas paisagem. É uma continuidade física entre a aldeia onde nasceu e a cidade onde se tornou artista. “O rio entra em Portugal perto da minha aldeia e chega aqui”, diz. “É um outro Douro, diferente, modificado, como nós vamos modificando ao longo do nosso percurso de vida.”
É essa a imagem que melhor explica a sua história. Não uma rutura entre Malhadas e o Porto, mas um percurso que se transforma sem apagar a nascente.