Na Noite de São João, o Porto Lembra-se de Quem É
Numa cidade cada vez mais dividida por rendas, bairros e algoritmos, o São João faz 100 anos a provar o impossível: ainda sabemos partilhar a mesma rua sem perguntar quem é quem.
Na noite de 23 para 24 de junho, o Porto suspende as regras. Não há bilhetes para comprar, não há pulseiras de acesso, não há zonas reservadas para quem paga mais. O diretor de banco leva com um martelo de plástico do estudante universitário; a turista de Nova Iorque partilha a mesma fumaça de sardinha com o morador das Fontainhas. Durante um século, desde as primeiras comemorações organizadas em 1926, esta tem sido a nossa maior vitória silenciosa. O São João é a festa mais profundamente democrática da Europa.
Num mundo que lucra com a indignação e que vive de nos separar em bolhas sociais, o que acontece no Porto esta semana devia ser estudado. A cidade cresceu, mudou, internacionalizou-se. Há quem diga que perdemos a alma para o turismo. Mas olhem com atenção: a festa sobreviveu. As rusgas continuam a descer dos bairros, as cascatas continuam a ser construídas a meias nas ilhas, os manjericos continuam a carregar quadras que não se traduzem para inglês. A Câmara pode organizar, as marcas podem patrocinar, mas o dono da noite continua a ser quem pisa a calçada.
Isso merece ser dito em voz alta. Numa era em que o espaço público é cada vez mais privatizado, nós mantemos a maior pista de dança do país aberta a todos, de graça.
Mas a pergunta incómoda tem de ser feita: sabemos o valor do que temos? Ou estamos apenas a cumprir calendário? É fácil celebrar o São João numa noite e, nos restantes 364 dias, ignorar a cidade que o faz nascer. É fácil bater palmas às rusgas e fechar os olhos quando os moradores desses mesmos bairros são forçados a sair porque já não conseguem pagar a renda.
A alma do Porto não se guarda num museu nem se vende num postal. Guarda-se na forma como tratamos os nossos quando a festa acaba.
Esta semana, a cidade sai à rua. Que seja para celebrar, sim, mas também para lembrar a quem manda e a quem visita que o Porto não é um cenário. É uma comunidade.
Cem anos de festa. E a única coisa que pode acabar com ela não é o turismo, não são as obras, não é a gentrificação. Somos nós — quando deixarmos de sair à rua.
MOMENTUM
Editorial do Momento do Porto
Por Sérgio Santos, diretor do Momento do Porto