Celebrámos o São João com orgulho — a festa mais nossa, a mais única, a mais portuense. Mas a cidade que faz nascer essa festa está a ser demolida, rua a rua, em silêncio.

Há poucos dias, o Porto saiu à rua como só o Porto sabe fazer. O São João encheu as calçadas de manjericos, sardinhas, martelos e gargalhadas. Uma festa que não se compra, não se replica, não se exporta. Uma festa que é daqui. Só daqui.

E no dia seguinte, as escavadoras voltaram ao trabalho.

Basta caminhar pela Fernão de Magalhães, pelo Bonfim ou pela Boavista. A casa típica portuense — aquela do final do século XIX, com a sua fachada de azulejos, as almofadas de granito, o ferro forjado nas varandas e o quintal nas traseiras com a sua japoneira ou magnólia — está a desaparecer. Como bem lembrou recentemente o professor António Sarmento, num artigo publicado no Público, estas casas "são o coração do nosso Porto. A alma são os que cá estão."

Mas o coração está a ser demolido. E no seu lugar nascem blocos de cimento anónimos, iguais a tantos outros que já vimos em tantas outras cidades. Alguém me dizia esta semana que o Porto está a ficar igual a tantas cidades europeias: os monumentos mudam, mas as lojas são as mesmas cadeias internacionais, as fachadas são as mesmas superfícies lisas, tudo muito standard, tudo muito padronizado. Será que queremos ser mais uma cidade assim?

Há uma esquizofrenia profunda na forma como vivemos esta cidade. Por um lado, vendemos a "autenticidade" do Porto ao mundo: a calçada, o azulejo, a traça única. Por outro, as licenças de demolição multiplicam-se para tudo o que não tem proteção legal expressa.

Amamos o que somos, mas não temos coragem de defender o que nos faz ser.

As cidades precisam de crescer e de se renovar. Ninguém defende que o Porto se torne num museu intocável. Mas reabilitar não pode ser sinónimo de apagar. Se continuarmos a demolir a nossa identidade arquitetónica fora da zona classificada, o que restará do Porto para além de um centro histórico transformado em parque temático?

Celebrámos o São João esta semana como se a nossa identidade fosse eterna. Mas o São João não vive no ar — vive nas ruas, nas casas, nos bairros que o fazem nascer. Quando essas ruas forem substituídas por caixotes de cimento, a festa vai continuar. Mas já não vai ser nossa.

Porque uma cidade sem alma não tem portuenses — tem meros habitantes. E quando tivermos transformado o Porto numa cidade igual a tantas outras, bonita na montra e vazia por dentro, vamos apelar a quem? Aos que afastámos deliberadamente? Aos que partiram porque não se reconheceram naquilo em que a cidade se tornou?

MOMENTUM
Editorial do Momento do Porto
Por Sérgio Santos, diretor do Momento do Porto

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