Nas Universidades do Porto, Dezenas de Milhares em Exames. A Europa Diz Que Estão a Ensiná-los Para o Século Passado

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Nas Universidades do Porto, Dezenas de Milhares em Exames. A Europa Diz Que Estão a Ensiná-los Para o Século Passado

Mais 93.596 alunos do secundário fazem exames nacionais esta semana com uma faculdade como destino. A maior associação de universidades da Europa tem um aviso que ninguém quer ouvir.

Esta semana, dezenas de milhares de estudantes entram em exames nas universidades do Porto. Na Universidade do Porto, no Politécnico, na Católica, na Lusíada, na Lusófona, na UFP e na Portucalense, os corredores enchem-se de nervosismo, sebentas e café. Em simultâneo, 93.596 alunos do secundário fazem exames nacionais com uma faculdade como destino — e muitos deles têm o Porto como primeira escolha. É o maior momento de avaliação do ano nesta cidade. E há uma pergunta que ninguém faz antes de entrarem na sala: para que mundo estão a ser avaliados?

A resposta mais incómoda desta semana não veio de um político nem de um sindicato de professores. Veio de Maria Kelo, Diretora de Desenvolvimento Institucional da Associação Europeia de Universidades (EUA), que representa mais de 900 instituições em 47 países. Em entrevista ao Expresso, foi direta: "A universidade está a preparar os alunos para um mundo que já não existe. Temos de fazer uma revisão radical do que se ensina." Não é uma opinião de um blogue de educação. É a voz da maior rede universitária da Europa. E o que ela diz devia ser lido por cada reitor, cada professor e cada pai que esta semana acompanha os filhos em época de exames.

Há razões para orgulho, e seria desonesto não as reconhecer. A Universidade do Porto é a 81.ª melhor da Europa no ranking QS 2026 — um feito notável para uma instituição pública cronicamente subfinanciada. A Católica Porto lidera a nível nacional em internacionalização. A Portucalense e a Lusíada apostam na ligação ao mercado de trabalho da cidade. A FEUP reuniu em março mais de 100 empresas portuenses numa feira de emprego. Há professores — e existem muitos — que reinventam as suas aulas, trazem casos reais do tecido empresarial do Porto para a sala e avaliam os alunos pela capacidade de pensar, não de memorizar. Esse trabalho existe e merece ser dito.

Mas há outra realidade, e ela não está nos rankings. Segundo o CEFAP (estudo FAP, fevereiro 2025), mais de 73% dos estudantes universitários do Porto ponderam emigrar após o curso. Apenas 10% garante que fica. O Porto investe em infraestrutura, em reabilitação, em cultura — mas não consegue segurar os jovens que forma. A perda estimada para a economia portuguesa ultrapassa os 2,1 mil milhões de euros por ano. O Porto forma. O Porto perde.

Dentro das faculdades, a divisão é real e ninguém a quer nomear. Há professores que chegam à aula com casos do mercado, que desafiam os alunos a resolver problemas que não estão nos manuais. E há professores que chegam com as mesmas transparências de há vinte anos, ditam matéria que existe no Google há uma década e avaliam pela capacidade de repetir — não de pensar. Nenhuma universidade, pública ou privada, está imune a esta divisão. E nenhuma a resolve enquanto não a admitir.

O diploma que o teu filho vai receber prepara-o para o mercado do Porto de hoje — ou para o de há vinte anos? As associações empresariais, a Câmara, as entidades locais estão a fazer o suficiente para que estes jovens queiram ficar no Porto depois de formados? E as universidades desta cidade, tão atentas aos rankings internacionais, sabem o que acontece aos seus alunos um ano depois de saírem pela porta?

Esta semana, dezenas de milhares de jovens estudam para exames nas universidades do Porto. Decoram, sublinham, repetem. E quando saírem da sala, vão encontrar um mercado que não lhes perguntou nada sobre o que memorizaram. Vai perguntar-lhes o que sabem fazer.

A questão não é se os alunos estão prontos para os exames. É se os exames — e as universidades que os definem — estão prontos para o século em que vivemos.

MOMENTUM
Editorial do Momento do Porto
Por Sérgio Santos, diretor do Momento do Porto

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