O Porto celebra-se. Mas para quem é esta cidade?
Este ano, o Porto celebra 30 anos de Património Mundial da UNESCO. Trinta anos desde que o mundo reconheceu o que os portuenses sempre souberam: que este centro histórico é único, irrepetível, vivo. Há exposições, visitas guiadas, concertos, reflexões sobre identidade e memória. O Porto entrou no Top 25 mundial dos congressos internacionais. Subiu nove posições num ano. Mais de três milhões de visitantes passaram pela cidade em 2025, colocando-nos no 5.º lugar mundial em turistas por habitante. Há muito para celebrar, e seria injusto não o reconhecer.
Mas há outro Porto que ninguém mostra e que não aparece nos rankings. Na mesma semana em que celebramos o património, as ruas à volta de Santa Catarina continuam a acumular lojas encerradas. Rua Formosa, Passos Manuel, 31 de Janeiro.
Uma comerciante com décadas de atividade resumiu tudo numa frase que devia fazer refletir uma cidade inteira: “Somos resistentes, mas só isso. Porque um dia que me constipe, isto fecha.”
Enquanto isso, os alugueres triplicaram, os grandes grupos ocupam os espaços e os clientes dizem que evitam a Baixa porque “há cada vez menos lojas e cada vez mais confusão.” O comércio que fazia a alma destas ruas está a desaparecer. E com ele, uma parte do que nos tornava portuenses.
Isto não é contra o turismo, nunca foi e nunca será. O turismo trouxe reabilitação, emprego, visibilidade internacional e uma energia que o Porto precisava.
Mas há uma pergunta que ninguém faz em voz alta, e que o Momento do Porto tem a obrigação de colocar: a partir de que ponto uma cidade deixa de ser uma cidade e passa a ser um cenário?
Quando o comércio que fazia a alma de uma rua fecha porque a renda já não é para quem vende aquilo que nos caracterizava com alma portuense, quando os moradores do perímetro classificado pela UNESCO falam em cansaço e não em orgulho, quando há 28 turistas a disputar cada metro de calçada com 1 portuense, quem é que decide o que esta cidade é? Os que cá vivem, os que cá trabalham, os que cá envelhecem? Ou os que cá passam?
O Momento do Porto não tem respostas definitivas, tem perguntas. E acredita que as perguntas certas valem mais do que as respostas fáceis.
Celebrar 30 anos de Património Mundial é justo. Atrair turistas e congressos é inteligente. Mas nada disso substitui a pergunta fundamental: para quem é que estamos a construir esta cidade?
Se a resposta não incluir quem cá vive, quem cá nasceu e quem cá quer ficar, então estamos a decorar a montra de uma loja que já fechou.
MOMENTUM
Editorial do Momento do Porto
Por Sérgio Santos, diretor do Momento do Porto