Na Rua da China e nas travessas da Presa da Agra e do Freixo, em Campanhã, há gente que sabe que a casa vai abaixo para dar lugar à linha de alta velocidade Porto-Lisboa e não sabe quando, por quanto, nem para onde. Na quinta-feira, 24 de setembro, moradores da freguesia, o movimento Vida Justa e a associação A Soalheira enviaram uma carta aberta ao Município a pedir uma coisa concreta: que não os deixe sozinhos. A frase é deles. Não pedem que o Município substitua a Infraestruturas de Portugal ou a concessionária da obra; pedem que faça de intermediário entre as pessoas e as entidades que decidem. Até à data da carta, não havia resposta pública.
Os números que a carta tem em cima da mesa são os do projeto: no Porto, a linha afeta 44 habitações, sete atividades económicas, entre elas a bomba de combustível da Avenida Gustave Eiffel, e três edifícios de outra natureza. A maior parte das casas fica na Rua da China. A obra tem consórcio adjudicado, o subtroço Porto-Gaia validado pela Agência Portuguesa do Ambiente em agosto e a chegada dos comboios prevista para 2032. O que não tem, dizem os moradores, é alguém do lado deles.
O que pedem é um canal permanente de acompanhamento, gerido pelo Município, que junte num só sítio a informação sobre calendários, expropriações, avaliações, indemnizações, realojamentos e evolução das obras, e que dê apoio direto às pessoas mais velhas e às famílias em situação mais frágil na relação com as entidades. É o pedido de quem já percebeu que vai ter de negociar com uma empresa e com o Estado ao mesmo tempo, e não quer fazê-lo sozinho.
A pergunta mais delicada é a das casas novas. Foi falada a possibilidade de construir habitação para as famílias afetadas em terrenos municipais de Noêda. Os moradores querem saber qual o terreno, que tipo de casas, quem pode optar por essa solução, quem paga e em que prazo. E querem garantias sobre a propriedade: recusam entregar casas e terrenos que são seus à concessionária para receberem, em troca, uma habitação construída em terreno de que não seriam donos. Perguntam, por isso, em nome de quem ficam as casas e os terrenos, e o que acontece se quiserem vender, deixar em herança, fazer obras ou pedir crédito.
Para quem vive de renda ou em habitação social, a carta pede realojamento adequado e perto, com prioridade para ficar em Campanhã e atenção especial aos idosos. Pede ainda que moradores e associações participem nas decisões sobre o novo Plano de Urbanização de Campanhã, que esteve em consulta pública em julho, e que o Município articule com a Junta de Freguesia um apoio de proximidade a quem vai ser afetado.
Esta carta chega cinco dias depois de um sábado em que moradores das casas condenadas guiaram uma caminhada pelas linhas antigas e futuras do bairro, no projeto "Entre o Luto e a Luta", de que o Momento do Porto deu conta a 18 de setembro. Então falava-se de cerca de 40 casas, segundo o projeto; agora o número é o do projeto de execução, 44. A diferença entre as duas datas é que a memória deu lugar às perguntas. E as perguntas, para já, continuam sem resposta pública.