Há despedidas que pedem respeito. E há despedidas que obrigam uma cidade a parar, olhar para si própria e perguntar se ainda sabe reconhecer, e repetir, o exemplo de quem a serviu.
O Porto despediu-se esta semana do Eng.º Nuno Cardoso. Engenheiro, professor, autarca e presidente da Câmara, ficará ligado a um período de transformação da cidade, ao Metro, à Porto 2001 e a projetos que ajudaram a preparar o Porto para um novo tempo.
Mas nenhuma cidade se lembra verdadeiramente de alguém apenas pela lista de cargos que ocupou ou pelas obras que deixou. Lembra-se pelo padrão que essa pessoa passa a exigir aos outros.
Nuno Cardoso deixa-nos esse padrão.
Foi um homem de ideias, mas não se ficou pelas ideias. Foi um homem de cidade, mas não confundiu amor ao Porto com discurso fácil. Mesmo depois de ter deixado a presidência, continuou ligado à vida da cidade, ao seu planeamento e aos debates sobre o seu futuro. Voltou a apresentar-se aos portuenses e a discutir habitação, mobilidade, participação e desenvolvimento económico. Porque continuava a tratar o Porto como uma responsabilidade.
Há quem sirva uma cidade enquanto tem cargo. E há quem continue a servi-la quando já não tem cargo nenhum.
Quem o homenageou nestes dias recordou uma dedicação determinada, discreta e constante ao Porto. Recordou a lealdade, a ética e uma capacidade rara de transformar conhecimento em realização. Mesmo pessoas que o enfrentaram politicamente falaram da persistência e tranquilidade com que discutia ideias opostas, sem converter a divergência numa fronteira entre pessoas.
Nas vezes em que com ele me cruzei, reconheci essa mesma seriedade. Para Nuno Cardoso, uma palavra não servia para preencher uma conversa. Era um compromisso. Quando dizia que ia tratar de algo, diligenciava. Quando assumia uma responsabilidade, procurava cumpri-la.
Num tempo em que prometer se tornou fácil e cumprir quase excecional, uma palavra cumprida é uma forma de caráter.
Não se trata de fazer de Nuno Cardoso um homem sem falhas. Isso seria injusto para ele e inútil para o Porto. Trata-se de reconhecer uma qualidade que esta cidade sempre soube distinguir: a seriedade de quem arregaça as mangas, diz ao que vem e não abandona o trabalho a meio.
A alma portuense não vive de frases decorativas. Vive de gente que trabalha quando é preciso, que defende uma ideia com firmeza e que não confunde firmeza com arrogância. Vive de pessoas que não esperam por uma fotografia, uma nomeação ou uma recompensa para se sentirem responsáveis pela cidade.
É por isso que a morte de Nuno Cardoso não deve ser apenas um momento de luto. Deve ser um marco. Um aviso tranquilo, mas exigente, aos líderes, às instituições, às empresas, às coletividades e a cada portuense: o Porto não se constrói só com quem decide. Constrói-se com quem pensa, propõe, participa, cumpre e não se limita a assistir.
Durante demasiado tempo, habituámo-nos a ouvir que “está tudo mal” e a responder que nada se pode fazer. Mas uma cidade que desiste de imaginar soluções pequenas, concretas e possíveis acaba por entregar o seu futuro a quem fala mais alto ou a quem já tem lugar à mesa.
Nuno Cardoso deixa-nos outra lição. Uma ideia não vale por ser grande. Vale quando alguém se dispõe a trabalhá-la até se tornar útil para as pessoas.
A homenagem que ele merece não cabe numa medalha, numa rua ou numa frase bonita. Começa quando o Porto decide transformar memória em compromisso. Quando uma boa ideia, nascida numa escola, numa coletividade, numa loja, numa empresa ou na cabeça de um cidadão desconhecido, pode ser ouvida, avaliada e posta a funcionar.
Não basta agradecer a quem serviu o Porto. É preciso perguntar se ainda somos capazes de o servir.
Nuno Cardoso partiu cedo demais. A cidade fica. E fica com uma pergunta que não pode ser respondida apenas com flores:
Vamos limitar-nos a elogiar o homem que cumpria ou teremos a coragem de fazer do compromisso uma regra para o Porto?
Obrigado, Eng.º Nuno Cardoso. Pela obra, pela dedicação e pelo exemplo de que uma cidade fica maior quando a palavra dada chega ao fim.
Sérgio Santos - Diretor | Momento do Porto