Há crianças que escolhem a mochila pelo desenho. Há pais que olham primeiro para o preço e só depois encontram uma maneira de não deixar que os filhos percebam. É assim que setembro começa em muitas casas do Porto.
O regresso às aulas devia começar com entusiasmo. Com a pressa boa de escolher os cadernos, com a curiosidade pelo primeiro dia, com a pergunta sobre quem vai ficar na mesma turma.
Mas, antes da primeira campainha, há outra rotina que se instalou em demasiadas casas: abrir a lista, somar o material, medir o que já não serve e decidir o que fica para depois. O casaco que ainda aguenta. As sapatilhas que duram mais umas semanas. A calculadora que espera pelo próximo ordenado. A mochila remendada para não acrescentar outra linha à conta.
Setembro tornou-se o mês em que milhares de pais fazem mais esforço para que os filhos sintam menos peso.
É justo reconhecer o que existe. O Porto assegura ação social escolar e comparticipa material para famílias elegíveis. Esse esforço é necessário e deve continuar. Mas o regresso às aulas não aperta apenas quem preenche um formulário. Aperta também quem trabalha, paga renda, transportes, alimentação e todas as contas de uma casa, e ainda assim chega a setembro a fazer escolhas que não queria ter de fazer.
Ao mesmo tempo, as lojas de rua do Porto enfrentam a mesma corrida. A papelaria que conhece o nome da criança. A livraria que guarda o manual. A sapataria que resolve a urgência da véspera. A pequena loja que encapa um livro à última hora quando tudo o resto já fechou. Pedimos-lhes que estejam próximas das famílias, mas deixamo-las competir sozinhas com empresas que compram em volumes impossíveis e não precisam de conhecer uma única rua da cidade.
Não há culpa numa família que procura o melhor preço. Nem há romantismo que justifique pagar mais só para defender uma montra. O que está errado é uma cidade aceitar que cada família e cada pequeno negócio se desenrasquem sozinhos numa corrida que podia ser mais justa.
A primeira lição de setembro não pode ser esta: cada família desenrasca-se como pode.
O Porto tem de transformar esta despesa inevitável numa escolha de cidade. A proposta deste editorial chama-se Porto na Mochila.
O Porto na Mochila seria um crédito anual, atribuído por cada criança residente, do pré-escolar ao 12.º ano, para utilizar no regresso às aulas. Não uma esmola. Não um gesto de ocasião. Um instrumento de orgulho, autonomia e pertença.
O valor seria utilizado por código digital, durante agosto e setembro, em despesas que as famílias reconhecem imediatamente: material escolar, livros e livros de atividades, mochilas, calculadoras, roupa, calçado, equipamento desportivo e outros bens definidos com regras públicas. E seria gasto apenas em estabelecimentos aderentes de verdadeiro comércio de proximidade do Porto.
Isto não significa excluir uma loja pela nacionalidade de quem a detém. Significa assumir, com transparência, o que se pretende preservar. Uma loja física na cidade. Uma atividade ligada ao regresso às aulas. Uma dimensão de proximidade. Uma micro ou pequena empresa independente de grandes grupos económicos. Preços claros, faturação identificada e auditoria possível. O Porto já aplicou um programa de incentivo ao comércio de rua com vouchers, reembolso por fatura e exclusão de espaços com mais de 250 metros quadrados. Não estamos a inventar uma exceção. Estamos a usar uma ferramenta que a cidade já conhece para cumprir uma ambição maior.
As instituições do Porto podem criar o Porto na Mochila? Sim, têm os instrumentos, o dinheiro, os exemplos e a responsabilidade para o fazer. Querem fazê-lo? Aí deixamos a pergunta à consciência de quem decide e à exigência de quem vive esta cidade.
Também não é uma ideia que exista apenas no papel. Na Catalunha, o Val Escolar deu 60 euros por aluno no último ano letivo. Chegou a mais de 782 mil estudantes, foi usado por mais de 91% dos beneficiários e mobilizou mais de duas mil lojas. Em Vila do Conde, cada aluno residente recebe 100 euros para utilizar em papelarias, livrarias e outros negócios locais aderentes. Há cidades que já perceberam que preparar um filho para a escola pode ser, ao mesmo tempo, preparar uma cidade para o futuro.
O Porto não tem de copiar ninguém. Tem de escolher o que quer ser. Uma cidade que só pede aos seus habitantes que resistam, ou uma cidade que organiza a sua força para tornar mais leve a vida de quem cá cria filhos?
Cuidar das famílias não é uma despesa simpática para constar de um discurso. É a base de uma cidade segura de si. É isso que torna um lugar mais habitável, mais capaz de reter talento e mais digno de ser escolhido por quem vem de fora. Antes de atrair empresas, antes de disputar rankings, antes de vender uma imagem, uma cidade tem de provar que não esquece as pessoas que lhe dão futuro todos os dias.
Não basta pedir aos portuenses que tenham orgulho no Porto. É preciso criar condições para que esse orgulho possa caber na mochila de cada criança.
O regresso às aulas volta todos os anos. O que não pode voltar todos os anos é o Porto dizer aos seus filhos: “A escola começa agora. O resto, desenrasquem-se.”
É esta a primeira lição que lhes queremos dar?
Sérgio Santos - Diretor | Momento do Porto