“Fui colocado.” É uma das frases mais felizes que uma família pode ouvir. Foram meses de esforço, exames, medo e esperança. Mas, no Porto, a alegria dura muitas vezes até ao primeiro anúncio de quarto. A partir daí, começa a prova que ninguém estudou: encontrar uma casa que se consiga pagar.

O Porto celebra os jovens que entram na universidade. E deve celebrá-los. Este ano, a Universidade do Porto colocou 5.064 estudantes na primeira fase. São milhares de histórias de mérito, trabalho e coragem. Jovens que fizeram o que lhes pediram: estudaram, concorreram e conquistaram uma vaga.

O Porto recebe-os com universidades de excelência, vida académica, ambição e futuro. Tem residências. Tem protocolos. Tem o Aconchego, uma ideia rara e profundamente portuense, que aproxima estudantes deslocados de seniores que vivem sós. Um quarto vazio transforma-se em casa. Uma casa silenciosa ganha presença. É uma resposta humana e merece ser reconhecida.

Mas reconhecer o que existe não pode servir de desculpa para aceitar o que falta.

O Aconchego nasceu há vinte e dois anos. Em 2024, tinha doze pares ativos. Doze. É um programa exemplar, cuidado e bem acompanhado. Mas, quando uma boa ideia se mantém pequena perante um problema gigante, deixa de ser solução e passa a ser uma exceção bonita que nos tranquiliza a consciência.

Não é digno do Porto celebrar a entrada na universidade e dizer a quem entrou: agora desenrasca-te.

A academia do Porto calcula ter cerca de 28 mil estudantes deslocados. Há menos de duas mil camas públicas. Para os restantes, o acesso à cidade é decidido por anúncios, telefonemas sem resposta, contratos frágeis e rendas que rondam os 430 euros por mês. A universidade seleciona pelo mérito. O quarto, demasiadas vezes, seleciona pela carteira dos pais.

Não é este o segundo exame que estamos a impor aos nossos jovens? Depois de passarem na universidade, queremos submetê-los ao teste da sorte, do anúncio mais rápido e da capacidade financeira de cada família? E, quando um estudante desiste de viver no Porto porque não encontra onde ficar, quem falhou? O jovem que fez tudo certo ou a cidade que o chamou sem lhe preparar uma porta?

O Porto sempre foi cidade de homens e mulheres guerreiros. Mas não confundamos coragem com abandono. Desenrascar-se pode ser uma virtude numa emergência. Não pode ser uma política para uma geração inteira que se resigna perante a sensação de não ter voz nem porta a que bater.

Há soluções que já provaram funcionar. Em Bruxelas, quartos destinados a estudantes podem receber um selo de qualidade, com condições verificadas, contrato e mediação. Em Lisboa, a Rede 1/4 da Universidade NOVA ajuda a encontrar alojamento através de perfis validados, contrato tipo e acompanhamento. Na Catalunha, jovens e proprietários têm acesso a mediação pública gratuita antes de um conflito se transformar em prejuízo para ambos.

O Porto não precisa de copiar cidades. Precisa de ter a ambição de fazer crescer o que já sabe fazer. O Aconchego prova que é possível avaliar, acompanhar e criar confiança. Falta multiplicar esse conhecimento.

Mais residências são indispensáveis. Mas o próximo quarto digno não tem de esperar por uma grande obra.

Esta rede não existe hoje. É a proposta que este editorial deixa ao Porto: um Pacto das Chaves do Porto. Uma equipa pequena, articulada com universidades, associações académicas, proprietários, famílias e parceiros sociais, começaria por ler anúncios, confirmar previamente as condições dos quartos, esclarecer quem arrenda e divulgar junto da academia apenas as opções que cumprem regras claras. Não é uma plataforma com mais anúncios. É uma porta de confiança.

O selo Porto Estuda Aqui identificaria quartos com condições confirmadas, despesas transparentes, contrato claro e mediação independente. Protege o estudante de um quarto indigno ou de uma promessa sem contrato. Protege também o proprietário sério de incumprimento, conflito e desconfiança. Bruxelas já certifica qualidade. Lisboa já valida perfis e disponibiliza acompanhamento. O Porto tem no Aconchego a prova de que sabe criar confiança. Falta transformar esse saber numa resposta à escala da urgência.

Não resolve, por si só, todas as rendas. Não dispensa novas residências. Mas termina com a ideia preguiçosa de que não há nada a fazer enquanto se espera por betão, concursos e anos de obra.

Uma vaga numa universidade não pode ser uma promessa a meio. Ou o Porto cria condições para que os seus estudantes possam ficar e estudar, ou continuará a perder talento para outras cidades. E, pior ainda, a perder jovens antes de eles chegarem sequer à primeira aula.

Sérgio Santos - Diretor | Momento do Porto
Share this article
The link has been copied!