Nasceu em Miragaia, cresceu com o hip-hop dos anos 90 e hoje cria murais inspirados no azulejo nas paredes da cidade. Nuno Palhas, o Third, fala do que a rua lhe ensinou, dos espaços culturais que continuam fechados e da razão porque regressa sempre feliz ao Porto.
Quem passa pela Rua de Santos Pousada ou pela esquina da Rua Antero de Quental com a Rua de Damião de Góis já se cruzou com o trabalho dele, mesmo sem saber o nome. Nuno Palhas assina Third. Nasceu no Porto, em Miragaia, vive em Gaia e diz ter feito quase toda a vida no Porto. Tem 47 anos, começou no graffiti e no breakdance e, nos últimos dois anos, trocou os robôs e as flores pelo azulejo.

As duas paredes são do Programa de Arte Urbana do Porto: a Casa das Camélias, pintada num edifício municipal, e Azulejo, num posto de transformação elétrica. Foram essas duas obras que abriram caminho para a conversa com o homem que as fez.
Pedimos-lhe que se apresentasse sem dizer que é artista. Perguntou se era sobre ele ou sobre a arte e acabou por falar da cidade: alguém que gosta muito do Porto e de Gaia, que gosta do quotidiano e que gosta de deixar marca por onde passa. Sobre o regresso a casa, depois de cada viagem, não tem dúvidas: Quando volto para o Porto, venho sempre feliz.
A primeira escola foi o hip-hop
O desenho veio da infância e da influência do pai, que não trabalhava nas artes mas gostava de desenho e de grafismo e punha os filhos a fazer projetos manuais. O resto veio da rua. No início dos anos 90, Nuno descobriu o hip-hop: foi b-boy, pintou as primeiras paredes e passou por bandas. Cresceu ao lado da geração que fundou os Dealema e viu-os juntar-se e gravar as primeiras coisas.
O graffiti, diz, nunca foi revolta. Era como jogar à bola: gostava e fazia. “Não como uma revolta, mas sim como uma forma de estar na sociedade”, explica. O hip-hop ensinou-lhe o resto: uma cultura que vem de meios desfavorecidos e que aprende a fazer muito com pouco. “Foi a minha primeira escola.”
Da dança guarda o único arrependimento que admite ter. “Acho que é a única coisa de que me arrependo na minha vida: ter parado com a dança.”
Do têxtil de volta às paredes
O percurso não foi em linha reta. Desenhou para marcas de roupa, estudou design têxtil e chegou a voltar à indústria por volta de 2016 e 2017. Fez também uma formação em game design e pensou seguir animação. A pintura mural acabou sempre por puxá-lo de volta. Hoje é trabalhador independente e não romantiza. Há prazos, logística, contratos públicos e plataformas que lhe roubam um dia inteiro para uma tarefa de cinco minutos. Ainda assim, não troca: “Sou mais feliz, sou mais livre.”
Há cerca de dez anos procurou formação académica em desenho e pintura. Continua a estudar no Atelier de Arte Realista do Porto, orientado por Daniel Gamelas, a quem diz dever muito. Foi ali que aprendeu uma regra que repete: ser razoável no que se começa, para conseguir acabar.
“Primeiro pequenos passos, para depois conseguires fazer a maratona.”

A cor sem limites e a dúvida como método
Quando lhe perguntámos o que está sempre presente nas suas obras, mesmo quando quem as vê não repara, respondeu que nunca lhe tinham feito essa pergunta. A resposta foi a cor. “Não gosto de ter limite na minha paleta”, diz. Quer uma paleta aberta a todas as possibilidades e a todos os erros que o possam levar por outro caminho.

O portefólio mostra isso. Já pintou robôs e mecanismos, depois a fauna e a flora dos sítios por onde passou, agora o azulejo. Admite que o mais difícil é o princípio: decidir o que fazer. Em 47 anos, fez uma ou duas exposições só com o seu trabalho. O graffiti ajudou-o precisamente aí, porque tem prazo curto e obriga a criar um processo que não falha.
Quando está a pintar, perde a noção do tempo. “É só ali mais cinco minutos e perdes mais duas horas.” Escrever é mais difícil para ele. “Às vezes conseguimos dizer muito mais numa pintura do que por palavras.”
O Porto que se perde e os espaços que estão fechados
Pedimos-lhe três coisas para mostrar a cidade a quem nunca cá veio. Escolheu a comida do Porto, atravessar a Ponte D. Luís e ver o pôr do sol. Mas sente que a cidade mudou. Confessa que achava que o Porto não deixaria acontecer o que viu em Lisboa. Enganou-se: com o turismo, perderam-se sítios antigos e surgiram outros. “Neste momento está um bocado desequilibrado.”
Na cultura, a crítica é mais resistente. Gosta de pintura clássica e de escultura e sente que a cidade tem poucos espaços para as mostrar. Recorda um museu em Roubaix, cidade francesa marcada pela indústria têxtil, onde passou quatro horas entre pintura e escultura. Defende espaços para quem sai das escolas de arte poder expor e aprender.
“Há espaços que estão aí fechados, que não se percebe porquê, e podiam estar abertos”, com exposições, aulas de desenho e de modelo, escultura e música. Não pede só aos outros. “Os artistas também têm que se mostrar e também têm que mostrar o seu descontentamento.” Por isso, apesar de se descrever como alguém que gosta de estar fechado no estúdio, aceitou integrar uma associação, para deixar de se limitar a queixar-se e passar a propor.

O dia em que o graffiti entrou na Avenida dos Aliados
O momento que mais o marcou foi a Street Art AXA, em 2014. Organizada pela Câmara Municipal do Porto, através da PortoLazer, a exposição levou 22 artistas portugueses e internacionais aos cinco pisos do Edifício AXA, na Avenida dos Aliados. Entre eles estavam Third e o espanhol Okuda. Na inauguração, a mostra atraiu milhares de pessoas. Para ele, foi a prova de que mostrar muda a forma de olhar.
“As pessoas achavam que o graffiti e a arte urbana eram uma coisa de vandalismo”, recorda.
Houve quem lhe dissesse, depois, que começou a ver a arte urbana de outra forma. E houve o que mais gosta: estar na sala onde pintou, sem ninguém saber quem é, a ver as pessoas reagirem à obra. Diz que é mágico. O que lamenta é que, tanto quanto sabe, não tenha ficado registo dessa exposição em livro ou em vídeo, nem continuidade.
Uma casa e um museu
Comprar casa nunca foi propriamente um sonho, mas a realidade atual tornou-o mais difícil de concretizar. Diz que, sozinho, não consegue fazê-lo e teme arrepender-se do preço que pagará daqui a 20 anos.
“Não era um sonho, foi imposto pelo que passamos hoje em dia.”
O sonho de artista é outro: expor num museu e, um dia, ter uma obra restaurada por uma instituição. Perguntámos-lhe o que gostaria que alguém percebesse se encontrasse um trabalho seu daqui a cem anos.
“Eu gostaria era de estar cá para ver.” Aos mais novos, deixa um conselho com uma ressalva honesta: para ele, é fácil dizer “acredita”, porque teve sempre o apoio dos pais e nunca precisou de trabalhar para os ajudar. Ainda assim, insiste em duas coisas: acreditar e investir tempo, e “saber ser autocrítico e saber aceitar as críticas”. Procurar cultura, viajar, inspirar-se no quotidiano e passar menos tempo nos ecrãs. E, sobretudo, não desesperar.