Na quinta-feira foi o Dia Europeu do Vizinho. Alguém bateu à porta ao lado?
Na passada quinta-feira, 29 de maio, celebrou-se o Dia Europeu do Vizinho. Uma data que existe em toda a Europa desde 1999, criada para lembrar algo que não devia precisar de calendário: que ao lado de cada porta existe outra porta, e que atrás dela vive alguém. Cidades como Paris, Bruxelas, Barcelona e Lisboa assinalam este dia com iniciativas de rua, encontros entre moradores, convites institucionais à vizinhança. O Porto, uma cidade que se quer europeia, que se quer próxima das pessoas, que celebrou há três semanas os 40 anos de integração europeia, deixou a data passar em silêncio. Sem campanhas, sem gestos, sem convites. E talvez esse silêncio, por si só, já diga tudo o que precisamos de saber.
Os números são conhecidos, mas vale a pena repeti-los até que alguém os leve a sério. Segundo os Censos de 2021 e o Diagnóstico Social do Porto publicado em 2024, uma em cada três famílias portuenses é composta por uma única pessoa. São 33.382 agregados de uma só pessoa, numa cidade de pouco mais de 100 mil famílias. O Porto tem a percentagem mais alta de famílias unipessoais do país: 32,7%, contra 24,8% da média nacional. Não estamos a falar apenas de idosos. Estamos a falar de uma cidade onde a solidão se tornou estrutural, transversal, normalizada. E normalizar a solidão é o primeiro passo para deixar de a combater.
O Momento do Porto reconhece o que tem sido feito. Há programas, há projetos, há vontade em várias frentes. Mas reconhecer não é o mesmo que aceitar como suficiente. Porque enquanto a cidade investe milhões em reabilitação urbana, em mobilidade, em turismo e em cultura, a pergunta que fica por responder é esta: quanto investimos em vizinhança? Quanto custa criar condições para que as pessoas se encontrem, se conheçam, se cuidem? Se a resposta for "pouco" ou "nada em concreto", então temos um problema que nenhum prémio internacional resolve.
Há cidades europeias que decidiram tratar a solidão urbana como uma questão de saúde pública. Há bairros redesenhados para que as pessoas se cruzem em vez de se evitarem. Há programas que transformam vizinhos em redes de proteção. No Porto, essa rede existe, mas existe na "carolice" de quem não espera por ninguém: a senhora que guarda as chaves do vizinho idoso em Aldoar, o grupo de mulheres que faz croché nas árvores em Massarelos para ter uma razão para sair de casa, os ex-jogadores que reabriram uma coletividade em Campanhã porque "eles ajudaram-nos quando éramos miúdos." Isto não é política pública. É humanidade a funcionar apesar do sistema, não por causa dele.
O Porto quer ser uma cidade europeia de referência. Quer atrair o mundo, quer ganhar prémios, quer liderar. Mas uma cidade que não celebra o Dia do Vizinho, que não conhece quem vive na porta ao lado, que tem um terço das suas famílias a viver em solidão, não está a liderar nada. Está a crescer de costas voltadas para si própria. E o Momento do Porto existe para que isso não passe despercebido.
Uma cidade que não sabe quem vive na porta ao lado não é uma cidade. É um conjunto de paredes.