Entre 25 e 27 de setembro, a Igreja da Lapa abriu as portas para mostrar o coração de D. Pedro IV. Depois, voltou ao resguardo. Uma pergunta, essa, devia ter ficado cá fora: o que é que aquele homem fez pelo Porto que o Porto deixou de fazer por si?
Não se trata de transformar D. Pedro IV num santo, nem de comparar sem cuidado uma cidade do século XIX com o Porto de hoje. Trata-se de reconhecer um símbolo e de lhe exigir consequência.
O coração está na Lapa porque a ligação de D. Pedro IV ao Porto se tornou uma marca de compromisso com uma cidade que não escolheu o caminho fácil. Nós, porém, habituámo-nos a admirar esse compromisso como memória, em vez de o usar como medida para o presente.
Não nos falta capacidade. O Porto tem universidades, hospitais, centros de investigação, empresas de engenharia, fundações, comércio, associações e coletividades que muitas cidades invejariam. Recuperou ruas, ganhou projeção, recebe visitantes e cria atividade.
Mas uma cidade não se mede apenas pelo que consegue mostrar. Mede-se pelo que consegue decidir, realizar e deixar a quem fica.
Há matérias que exigem Estado. A ferrovia, o Metro, as grandes infraestruturas e a proteção costeira precisam de escala nacional. Exigir que o Estado cumpra não é favor. É direito.
Uma coisa é exigir ao Estado que cumpra. Outra é transformar a espera numa forma de estar.
A frase instalou-se na cidade: “isso depende de Lisboa”. Depende, muitas vezes. Mas depende uma universidade de ligar conhecimento a um problema do bairro? Depende uma empresa de financiar uma solução que fique? Depende uma fundação de pôr recursos ao serviço de uma causa concreta?
Há problemas que não esperam por uma autorização para começar a ser resolvidos.
Braga mostra-o sem sair de Portugal. A Universidade do Minho e a Bosch construíram uma parceria de longo prazo entre conhecimento e indústria. Nos três primeiros grandes programas, essa colaboração representou cerca de 165 milhões de euros de investimento e deu origem a 93 patentes. Houve financiamento público, claro. Mas houve também uma escolha local: sentar ciência e indústria à mesma mesa, trabalhar durante anos e transformar conhecimento em resultados.
Braga não dispensou o Estado. Fez algo mais importante: não ficou à espera de uma solução pronta.
Em Eindhoven, empresas, instituições de conhecimento e governo regional criaram e mantêm há cerca de 25 anos uma estrutura comum de cooperação, a Brainport. A cidade não resolveu tudo sozinha nem dispensou o Estado. Fez algo decisivo: deixou de esperar que o futuro fosse pensado apenas por outros.
O Porto não tem menos conhecimento do que Braga. Não tem menos capacidade institucional do que Eindhoven. O que ainda não tem é uma mesa permanente que transforme essa capacidade em compromissos de cidade.
E não, isto não é um ataque ao turismo. O Porto deve receber bem quem chega. O turismo trouxe movimento, emprego e atividade a muitas zonas da cidade. Mas uma cidade que pensa apenas em quem chega à sexta e parte ao domingo não pode pedir lealdade a quem acorda aqui à segunda.
É preciso voltar a pôr o conhecimento, a permanência e a vida de quem cá está no centro da ambição.
Por isso, este editorial propõe o Pacto da Lapa.
Em 2032 assinalam-se duzentos anos do Cerco do Porto. Mas 2032 não pode servir para adiar tudo até amanhã. Até 25 de setembro de 2027, a cidade deve ter escolhido a primeira missão do Pacto: uma solução concreta, útil e mensurável para quem vive no Porto. Pode ser habitação estudantil, apoio técnico às coletividades, conforto térmico para casas vulneráveis ou a recuperação de um espaço de bairro. O tema será escolhido em público. O compromisso não pode ser abstrato.
À mesa são chamadas as universidades e escolas superiores, as instituições de saúde, as empresas e associações empresariais, as fundações, as Ordens profissionais, as instituições culturais e sociais, as coletividades e todas as entidades que detêm conhecimento, recursos e capacidade de execução no Porto. O poder local deve ser parceiro, não dono único da resposta. Empresas, associações, bairros e cidadãos têm de ter uma porta aberta nessa conversa.
Cada compromisso terá quatro elementos: um responsável, dinheiro identificado, uma data e contas públicas de seis em seis meses. Se faltar um deles, não é compromisso. É conversa.
Não se pede uma obra faraónica. Pede-se uma prova de coragem. Uma ideia decidida aqui, feita aqui e capaz de servir daqui a décadas.
Fica aqui o desafio. Quem, entre as instituições que fazem o Porto, está disposto a aceitar o legado de D. Pedro IV e a assumir uma obra útil, decidida aqui e capaz de durar mais dois séculos? A cidade não precisa de mais um manifesto para a gaveta. Precisa de saber quem está disposto a assumir uma parte do futuro.
O coração de D. Pedro está na Lapa. A coragem do Porto não pode continuar fechada numa urna.
Quem é o primeiro a assinar?
Sérgio Santos
Diretor | Momento do Porto