Há ideias que morrem antes de nascer. Morrem na mesa da cozinha, na conversa de balcão, na sede de uma coletividade. Não porque sejam pequenas demais, mas porque quem as tem não sabe onde as deixar. E uma cidade que deixa estas ideias morrer está a desperdiçar a inteligência dos seus bairros.

Quem percorre a mesma rua todos os dias vê problemas que, muitas vezes, não chegam aos relatórios. Vê o banco onde já ninguém se senta, o passeio que obriga um idoso a desviar-se, a sala fechada que podia voltar a servir a comunidade. Vê também as soluções possíveis. Conhece quem vive ali. Sabe o que seria preciso. Falta-lhe, demasiadas vezes, uma porta clara que aceite a ideia, a ajude a ganhar forma e lhe dê uma resposta.

O Porto não é pobre em talento nem em vontade. Tem estudantes que conhecem a cidade, comerciantes atentos a cada mudança da rua, vizinhos que cuidam do que é comum e coletividades que fazem muito com pouco. Mas quantas dessas ideias acabam reduzidas à frase que todos já ouvimos: "Isto resolvia-se depressa, se alguém quisesse"?

Uma boa ideia não devia ter de conhecer alguém para chegar à rua.

Quando uma proposta depende de um contacto, de tempo que ninguém tem ou da capacidade de escrever como um técnico, a participação deixa de ser uma possibilidade para todos. Fica reservada a quem já sabe como entrar. E uma cidade que só ouve quem já está dentro perde justamente a voz de quem vive os problemas mais de perto.

Há dias, o Porto despediu-se do Eng.º Nuno Cardoso. No domingo passado, este espaço falou da obra, do engenheiro e do homem que continuou a tratar a cidade como responsabilidade. Mas a melhor homenagem não é repetir essa memória até ela perder força. É perguntar como se transforma a memória de um fazedor numa oportunidade para outros fazerem.

Por isso, o Porto devia discutir a criação de um mecanismo cívico à altura desse legado. Se a família entendesse apropriado que o seu nome lhe fosse associado, poderia chamar-se Prémio Eng.º Nuno Cardoso | Porto por Fazer. Não uma cerimónia. Não um concurso de frases bonitas. Muito menos uma votação de likes. Uma porta para ideias pequenas, concretas e realizáveis, apresentadas por cidadãos, escolas, coletividades, lojas, empresas e instituições que conhecem um problema e querem ajudar a resolvê-lo.

A regra teria de ser simples. Primeiro, qualquer pessoa poderia apresentar uma ideia por palavras suas, numa folha, numa sessão presencial ou numa gravação curta. Depois, uma pequena equipa independente ajudaria as propostas mais promissoras a ganhar viabilidade, custo, parceiros e prazo. Só então um júri plural, com cidadãos e competência técnica, escolheria poucas ideias pelo problema que resolvem e pela possibilidade de as pôr no terreno.

Quem fosse escolhido não receberia apenas aplausos. Receberia condições de execução, acompanhamento, um calendário e uma página pública onde cada portuense pudesse ver o que foi prometido, o que foi feito e o que ficou por cumprir. A responsabilidade não terminaria na escolha. Começaria aí.

Uma cidade não se mede apenas pelo que anuncia. Mede-se pelo tempo que uma boa ideia demora a chegar ao terreno.

Isto não é ingenuidade. Em Boston, a Awesome Foundation mostra, desde 2009, como um pequeno grupo de cidadãos pode financiar regularmente uma ideia concreta para a sua comunidade. Não é um modelo de cidade para copiar. É uma prova de que o primeiro passo pode ser pequeno. Ouvir sem executar é apenas adiar; escolher sem dar meios é apenas criar frustração.

O Porto não precisa de começar com uma estrutura pesada nem com promessas grandiosas. Pode começar por poucas ideias, recursos claros, parceiros capazes e uma prestação de contas que não desapareça depois da fotografia. Se resultar, cresce. Se falhar, corrige-se. Mas alguém tem de ter a coragem de abrir a primeira porta.

É assim que se honra verdadeiramente um homem de obra. Não tratando os cidadãos como espectadores, mas reconhecendo que há inteligência, decência e vontade de fazer em quem nunca teve convite para se sentar à mesa certa.

O Eng.º Nuno Cardoso deixou uma cidade com mais ambição. A pergunta que fica agora é menos confortável do que uma homenagem:

O Porto quer apenas uma placa a recordar Nuno Cardoso ou uma porta aberta para que mais portuenses possam continuar a sua lição?

Sérgio Santos
Diretor | Momento do Porto

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