Há um edifício de vidro em frente à Praia Internacional, no Porto, que o Estado e o Município decidiram em abril demolir em parte, deixando só um piso ao nível do areal para apoio à praia. Desde então, as pessoas que lá trabalham todos os dias, num espaço de trabalho partilhado, em cafés, quiosques e escolas de surf, foram-se organizando para dizer que não querem sair. Têm uma petição, uma associação e, desde este mês, uma campanha de testemunhos nas redes sociais. O que ainda não têm é uma data: o Município disse em julho que divulgaria os prazos da demolição até ao fim do ano e aponta para 2027.

A petição, aberta a 22 de maio em nome de um "Movimento Transparente Vivo", pede à Assembleia Municipal e à Assembleia da República que qualquer processo de demolição seja suspenso e que se abra um processo de avaliação, diálogo e participação pública para estudar alternativas de reabilitação. O argumento central é a comunidade: segundo o texto, mais de 600 pessoas trabalham presencialmente no edifício, sobretudo no espaço de trabalho partilhado que ocupa os pisos superiores. A petição continua aberta e a recolher assinaturas.

A campanha "Transparente Vivo" ganhou site e página de Instagram, onde publica, desde a semana passada, retratos de quem lá trabalha, com frases sobre o que o edifício mudou nas suas vidas, e um apelo à assinatura. É uma campanha pequena, para já, com poucas dezenas de seguidores, mas com um mote que resume a posição de quem a faz: uma comunidade viva é património da cidade, e antes de decidir o futuro do espaço é preciso ouvir quem lhe dá vida.

A segunda frente é formal. A 3 de junho foi constituída a Associação de Defesa do Edifício Transparente, cujos estatutos, consultados pela Lusa em agosto, falam em "proteção patrimonial" do edifício, defesa da continuidade da atividade económica instalada e dos postos de trabalho, e oposição a demolições ou alterações que afetem a sua identidade. Entre os fundadores está um advogado, o diretor de uma das empresas instaladas e o administrador da empresa concessionária do edifício. É um dado que importa para ler o conflito: a defesa do edifício junta quem lá trabalha e quem o explora comercialmente.

A concessionária, a Hottrade, já tinha avançado por conta própria: em junho anunciou uma ação judicial contra a intenção de demolição e contra o que classifica como a "cessação unilateral" da concessão, que tinha sido prolongada até junho deste ano. No comunicado, contabilizava cerca de 88 empresas a usar o edifício diariamente, aproximadamente 200 postos de trabalho diretos e cerca de 2000 utilizadores. São números diferentes dos da petição, e nenhum deles foi confirmado por uma entidade independente. Em julho, a mesma empresa insistia que não são conhecidos estudos que justifiquem a urgência da demolição.

Do outro lado, a razão invocada em abril pelo Ministério do Ambiente, pela Agência Portuguesa do Ambiente e pelo Município foi ambiental e de espaço público: devolver a praia e a frente de mar ao parque e às pessoas, num plano de orla costeira que, desde 2021, identifica o edifício como estrutura a retirar. O Município garantiu na altura que a transição seria gradual e que ajudaria as empresas a encontrar espaços alternativos, se fosse preciso. Até agora não há projeto, custo nem calendário públicos.

O edifício foi construído para o Porto 2001, Capital Europeia da Cultura, com desenho do arquiteto catalão Manuel de Solà-Morales, e concessionado em 2004 por 20 anos. Quando abriu ao público, em 2007, tinha 23 espaços de comércio e restauração. Hoje é, sobretudo, um lugar de trabalho. A pergunta que fica para a cidade é a que a petição e a decisão de abril colocam de lados opostos: uma praia devolvida ao parque ou um edifício cheio de gente que não quer sair. E, entretanto, uma que ninguém respondeu ainda: quando.

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